Mulher escreve livros para incentivar garotas a virarem cientistas

A cientista brasileira quer empoderar meninas para que elas aprendam que a ciência também é área para mulher!
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Foto: Divulgação

De acordo com a ONU, só 29% dos cientistas no mundo são mulheres e talvez o grande motivo sejam os esteriótipos de gênero. A brasileira Alessandra Pacini, foi uma dessas meninas que não teve medo de ir em frente e se arriscar em uma área "tipicamente masculina" e o resultado foi incrível.

Hoje, ela estuda o chamado clima espacial, área que investiga como a alta atmosfera terrestre responde à atividade do Sol. Foi graças ao filme Contato, adaptação do único romance escrito pelo astrônomo Carl Sagan, que Alessandra, então no ensino médio, decidiu que queria se jogar na ciência. “Vi aquela mulher trabalhando inclusive aqui, em Arecibo, e aquilo de fato mudou a minha vida”, diz a física espacial, pesquisadora visitante no Observatório de Arecibo, em Porto Rico — um dos maiores radiotelescópios do mundo.


Prestes a se tornar membro permanente da equipe, ela criou a série Girls InSpace, destinada a leitoras de nove a 13 anos. É nessa faixa em que muitas meninas são desestimuladas e desistem de seguir carreiras em ciência.

Os livros começaram a ser escritos em 2010. Na época, Pacini dava aulas no CEFET Química de Nilópolis (RJ) para preparar jovens estudantes para a Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica (OBA). Duas alunas, Isabelle e Rafaela, se destacaram tanto que, além de ganharem medalhas de ouro na OBA, foram presenteadas também pela escola com uma luneta.

A astrofísica encontrou no episódio a inspiração para o primeiro livro da série, A Luneta e Isabelle, que introduz o método científico e alguns tópicos de astronomia em linguagem infantil. “Todos os personagens são crianças reais, da minha vida, que têm algumas situações que eu associo com o espaço”, diz. Assim, as meninas se identificam ainda mais com as histórias.

Durante cinco anos, Pacini foi também professora na Universidade do Vale do Paraíba (Univap), onde conheceu o ilustrador Allan Max — foi ele quem ilustrou o livro. Mas então veio o doutorado, e não havia mais tempo livre para escrever livros infantis. “Aí eu me casei com um gringo e fui parar nos Estados Unidos”, conta. Lá, um colega africano a convenceu não apenas a retomar o projeto, como também a levá-lo muito mais longe.

Lançou a ideia de disponibilizar o livro a crianças africanas cuja língua nativa também seja o português, além de publicar outros volumes mais focados na área dela, a física espacial e solar. Surgiram, então, mais três livros que introduzem jovens leitoras ao clima espacial e ao Sol, aos raios cósmicos e às auroras boreais e austrais.

A vontade de publicar a obra em vários países da África e da América Latina esbarrou em um grande empecilho: a falta de recurso para as traduções e as ilustrações. Pacini deu início a uma campanha de financiamento coletivo no Kickstarter e o problema foi logo resolvido: em apenas cinco dias, a meta de US$ 5 mil já havia sido alcançada. O sucesso foi tamanho que, faltando um mês para o fim da campanha, em 11 de abril, o Girls InSpace arrecadara quase o dobro do valor.

Os prefácios dos livros, por exemplo, são todos escritos por pesquisadoras da área — uma forma concreta de mostrar às garotas que é possível, sim, ser mulher e ter uma carreira científica de sucesso. “O projeto foi criando forma sozinho, estou bem orgulhosa do que estamos conseguindo hoje”, diz Pacini. Com as metas alcançadas, será possível pagar não só pelas ilustrações e pelas traduções em inglês, espanhol, francês e árabe, como também tornar a série mais acessível graças ao formato de áudiolivros.

Mas, afinal, por que a participação feminina em carreiras espaciais e científicas no geral é tão baixa?  Para a astrônoma Duília de Mello, vice-reitora da Universidade Católica de Washington e conhecida defensora da causa, é difícil comparar realidades tão diferentes, como o Brasil e a Europa. Mas parece haver um motivo comum, que permeia todas as sociedades. “É essa história de que existe coisa para menino e coisa para menina”, afirma Mello.

“Isso acaba desestimulando as meninas de seguirem certas carreiras, elas começam a se intimidar desde crianças”, diz. É por isso que ela acredita que Girls InSpace ajuda a reverter a lacuna de gênero na ciência: o protagonismo feminino dos livros não só acaba com o estigma de que as ciências exatas são para garotos, como também estimula as garotas mostrando a elas claramente as carreiras que podem seguir. “A gente não quer ser aquilo que não vê, vemos uma coisa e nos inspiramos para ser aquilo.”

É o tipo de livro que, nas mãos de uma menina interessada por ciência, tem o poder de dar um rumo e um objetivo à vida dela. Amanda Silva, astrônoma amadora de 17 anos premiada pela NASA em 2017, conta que “seria maravilhoso” poder contar com um exemplar de Girls InSpace aos nove, quando descobriu que sua vocação era cursar astronomia. “Na época eu não tinha tanta inspiração, acho que um livro desses ajuda aquelas que querem seguir desde novas nessa carreira”, diz. Prova de que basta empoderar uma garota para que ela conquiste as estrelas — e seja o que quiser ser.

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