Usuárias de pílula anticoncepcional fazem mais sexo

Usuárias de pílula anticoncepcional fazem mais sex

Em 2010, a pílula anticoncepcional completa 50 anos. Este método contraceptivo é considerado eficiente por 80% das mulheres. O número foi retirado de uma pesquisa pioneira realizada pela Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo). A meta era traçar o conhecimento da brasileira sobre a pílula e descobrir se há uma relação entre a libido e o anticoncepcional.

A análise quantitativa desenvolvida pelo IBOPE faz parte do projeto R.O.S.A. - Resultados e Opiniões sobre Saúde e Anticoncepcional. A amostra foi composta por 500 mulheres, entre 15 e 45 anos, das classes A e B. Foram entrevistados por telefone grupos de 100 mulheres de cinco capitais brasileiras: São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Recife e Belo Horizonte.

De acordo com os dados coletados entre 5 e 20 de maio de 2009, uma em cada três mulheres brasileiras acredita que a pílula afeta de maneira positiva a vida sexual. Na opinião do ginecologista Gerson Lopes, presidente da Comissão Nacional de Sexologia da Febrasgo, essa melhora se deve à liberdade proporcionada pela contracepção. Isso porque a mulher, sabendo que está protegida, tende a se entregar mais ao sexo. "As pílulas mais modernas têm efeitos na autoestima, melhorando pele, cabelo e aparência em geral. Isso é decisivo para a mulher se sentir mais satisfeita com o sexo", afirma.

Essa mesma satisfação leva ao aumento da frequência sexual, fato comprovado por 29% das entrevistadas. "Não ter medo de engravidar facilitou a vida sexual da mulher", comenta Dr. Gerson. Por esse motivo, 86% das mulheres não pretendem parar de usar a pílula e 70% não querem mudar de método contraceptivo.

"O desejo sexual é complexo e envolve outras questões psicológicas, físicas, culturais e sociais. Além disso, a mulher está bem mais exigente. Não quer engordar, não quer ter acne nem mudar o cabelo. E a medicina moderna tem condições de oferecer uma pílula que cause efeitos colaterais menores", declara o ginecologista.

A pesquisa revelou que ainda que 11% das brasileiras acreditam que o método aumenta o desejo sexual. Isso também foi ratificado pelo Dr. Gerson, sob o argumento de que as combinações de hormônios existentes nas pílulas anticoncepcionais influenciam a libido feminina: "Entretanto, este assunto só é abordado de maneira correta quando as pacientes questionam seus médicos. É preciso que os profissionais conheçam a fundo a vida sexual de suas pacientes". Ainda segundo o Dr. Gerson, a instabilidade das uniões faz com que as mulheres fujam de métodos definitivos. "Hoje o número de separações leva a paciente a buscar métodos reversíveis de contracepção", diz.

O universo feminino pesquisado era bastante vasto: 43% das mulheres entrevistadas tinham entre 26 e 35 anos, 31% tinham entre 15 e 25 e 26% das participantes tinham entre 36 e 45 anos. As entrevistadas que usam pílula atualmente somavam 81%. O restante havia recorrido ao medicamento nos últimos 12 meses. Quanto à escolaridade, prevaleceram as mulheres com ensino médio (46%) e superior (46%). No quesito renda familiar, 31% das mulheres disseram ganhar mais de 10 salários e 29% entre cinco e 10 salários. Nas capitais Porto Alegre e Rio de Janeiro estão concentradas as mulheres que usam pílula há mais de 10 anos.

A jornalista Silvana Deolinda, 31 anos, usou pílula dos 15 aos 17 anos para regular a menstruação. "A medicação resolveu o meu problema. Minhas cólicas praticamente desapareceram e meu fluxo diminuiu", diz. Assim que iniciou uma relação estável, a profissional procurou o ginecologista e retomou o uso da pílula, aos 22 anos. E não quis trocar de marca. "Sei que existem outros métodos contraceptivos, mas já estava habituada à pílula", explica. "Além disso, a fórmula que escolhi possui baixa dosagem de hormônio e não tive nenhum efeito colateral." Casada há dois anos, Silvana decidiu que só vai interromper o medicamento quando decidir engravidar.

Efeitos colaterais

Em todas as capitais pesquisadas é enorme o número de mulheres que trocam de marca de pílula anticoncepcional, por conta dos efeitos colaterais. Os índices variam entre 81% e 89%. Entre os principais motivos de descontentamento levantados pela pesquisa estão ganho de peso (45%), enjoo e mal-estar (31%), dores de cabeça (29%), retenção de líquido e alteração de humor, ambos com 16%.

Devido a esses contratempos, o ginecologista explicou que os médicos precisam individualizar a indicação de pílulas para suas pacientes, uma vez que hoje existem diferentes marcas do medicamento. "Para que isso ocorra, o médico precisa conhecer melhor a vida sexual da paciente. Se ele indicar uma pílula que interfira na sexualidade e no prazer da mulher, ela certamente vai colocar a culpa no medicamento. Uma relação sexual prazerosa está ligada ao conceito de saúde", ressalta. "Um método contraceptivo não pode diminuir a libido. A sexualidade da mulher não pode depender de uma pílula", afirma.

O presidente da Febrasgo, Dr Nilson Roberto de Melo, completou ressaltando que a sexualidade da mulher não envolve somente o orgasmo. Existe ainda o olhar, o tocar. E se a vida cotidiana não estiver bem, o sexo tende a não corresponder às expectativas. "Se o parceiro é hostil, a mulher não vai sentir prazer na cama. Elas não suportam habituação. Se o homem faz sexo sempre do mesmo jeito, na mesma hora e no mesmo lugar, a parceira tende a não tolerar".

Além da pílula, outros três métodos contraceptivos foram citados pelas entrevistadas: preservativo masculino (93%), DIU (81%) e preservativo feminino (72%). Para saber mais sobre a pílula anticoncepcional, 61% das mulheres entrevistas recorrem ao próprio médico, enquanto 26% pesquisam sobre o assunto na internet e 12% conversam com amigas. "O erro mais grave das mulheres atualmente é usar um método emergencial como contraceptivo normal. A pílula do dia seguinte, por exemplo, é para uso emergencial. Não pode ser usado como um anticoncepcional normal, diário", lembrou Dr. Gerson.

Já Dr. Nilson faz questão de anunciar que o uso prolongado de pílulas anticoncepcionais não causa infertilidade. Além disso, o fim da menstruação não traz problemas para a mulher. "Há mulheres que optam pelo medicamento para melhorar o ciclo menstrual, uma vez que ciclos irregulares aumentam as chances de doenças como a endometriose", explica.

O ginecologista lembra ainda que a pílula diminui o risco de câncer de ovário, cistos e miomas. "É importante ressaltar que as mulheres portadoras de diabetes há mais de 20 anos e com Lúpus devem evitar o uso de anticoncepcional", declara.


Segundo a Febrasgo, essa pesquisa corresponde à primeira etapa da pesquisa. O próximo passo é esmiuçar os mitos e as verdades sobre o uso do anticoncepcional. Estes resultados ainda não têm data para serem apresentados.

Por Juliana Falcão (MBPress)

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