Símbolos Líquidos

Acorda, toma café rapidinho. Corre no clube, toma banho rapidinho. Depilação, unha, supermercado, livraria, almoço rapidinho. Liquidação, tecido novo para o sofá, exposição na Oca, café rapidinho. Corre, que ainda tem que tirar o atraso do cinema, jantar em algum lugar que valha a pena, passar no aniversário da amiga e tentar dormir bem para descansar, porque os sábados servem para isso. Para tudo isso!

Quer saber o que é um sábado com bem-estar? Ou melhor, o que é um sábado produtivo? Ou melhor ainda: o que é uma mulher produtiva em busca do seu bem-estar, em pleno sábado?

Lá vai: no último sábado, uma amiga combinou um almoço comigo. Já estava chegando a hora e ela me ligou: “estou quase acabando tuuuudo o que tinha pra fazer. Agora só falta trocar minha aliança, mas já estou aqui na porta da loja”. Demorei alguns segundos para entender. Por que ela ia trocar a aliança? A resposta veio sem que eu precisasse perguntar: ela não gosta de aliança fina, nunca gostou e, agora, cinco anos depois, resolveu trocá-la por uma mais grossa. Nunca esteve tão claro para ela: essa coisa de aliança fininha, delicadinha, levinha não combina com sua mão e, muito menos, com o seu casamento. Existe casamento fininho, delicadinho, levinho? O marido continuará a usar a aliança fininha porque ele gosta. Ou talvez goste da idéia de um casamento mais levinho. Mas ficou tudo bem entre eles. Aliás, tudo ótimo. Nada mais honesto e realista do que justamente aquilo que simboliza a união deixe bem explícita a questão essencial de todas as uniões: as diferenças. Cada um com sua individualidade, cada um com a sua espessura de aliança!

No mesmo dia, já em outro lugar (sábado é sábado), ouvi duas mulheres conversando. O assunto? Alianças. Ex-alianças, nesse caso. Elas conversavam sobre o que haviam feito com as suas, depois da separação. Uma largou a aliança numa caixa de badulaques, misturada a lápis quebrado, papel velho, parafuso perdido, e seu destino parece certo: o lixo. A outra guardou a sua na caixinha de jóias, sem pensar muito, mas agora, pensando bem, pra quê? Até o final da noite ela já tinha decidido que ia derreter a aliança e mandar fazer um pingente para sua filha. Quem sabe um anjo protetor das diferenças? Ou um santo padroeiro dos amores líquidos de alianças derretidas?

E levando-se em conta que, segundo o IBGE, aproximadamente 30% dos casamentos acabam em separação, esse negócio de derreter alianças e transformá-las em outra coisa pode ser bem promissor.

Leia também - Para quem você pode virar a cara

Uma a Uma é uma empresa de inteligência de mercado especializada no público feminino. As sócias e colunistas do Vila Mulher, Denise Gallo e Renata Petrovic, ajudam a entender melhor e desvendar as várias faces da mulher contemporânea. Contato: umaauma@umaauma.com.br

Comente