Sexo sem amarras - entrevista com a autora Bia Areias

Sexo sem amarras

Foto - Divulgação Editora Gente

A atividade sexual impulsiona a vida, alimenta e abastece para as atividades cotidianas. Pelo menos é isso que pensa a Bia Areias, autora do livro “Sexo sem Amarras”. Segundo ela, uma boa noite de sexo melhora o humor e saúde, além de ser considerado por estudiosos e especialistas como um ‘medicamento revolucionário’ pela sua eficácia e custo zero.

O livro de Bia, lançado este mês pela Editora Gente, discute variados temas e modalidades sexuais, com uma narrativa clara, direta e muitas vezes, divertida. A personagem Ana conta, passo a passo, a evolução de sua abertura para a vida, amor e sexo. Também descreve como conseguiu, pouco a pouco, livrar-se das amarras do preconceito e viver a plenitude do seu próprio querer. “Ela mostra que é possível usufruir de uma sexualidade autêntica e livre, sem manchas ou rótulos sociais”, completa Bia.

A personagem Ana herdou uma série de reflexões e dicas sexuais que surgiram da experiência pessoal e profissional da própria autora. “Muitas de suas histórias fazem parte de uma gama de experiências, desejos e fantasias que compõem o imaginário feminino - do meu, do seu, do nosso universo sexual”, diz.

O gosto de Bia por filosofia, sobretudo a nietzscheana, também é dividido com a personagem. A liberdade criadora do homem - decantada pelo filósofo alemão - é o fio condutor de diversas expressões da sexualidade de Ana. “‘Assim falou Zaratustra’ foi uma obra de grande impacto e inspiração em minha vida e contribuiu bastante para a composição do estilo e personalidade da protagonista”, conta.

Em entrevista ao Vila Dois, Bia fala que ‘respeitar o próprio querer’ não deve abranger o egoísmo. Ao contrário, essa atitude deve se estender aos desejos do parceiro. “O casal deve procurar o equilíbrio e a sintonia entre as fantasias de cada um. O diálogo deve ser franco e aberto para assuntos sexuais sejam eles: pedidos, dúvidas, fantasias, propostas”. Segundo ela, a comunicação é peça-chave para uma vida sexual saudável e prazerosa, além de fortalecer os vínculos e aproximar as aspirações sexuais dos dois. “Se a diferença entre interesses e desejos for muito grande e de difícil conciliação, talvez seja o caso de trocar de parceiro”.

Sexo sem amarras

Bia Areias

Por que escrever um livro sobre sexo? De onde veio a inspiração?

A idéia de escrever um livro sobre sexo surgiu da minha experiência profissional na clínica. Problemas variados em torno do sexo povoam consultórios terapêuticos. Muitas pessoas ainda ignoram seu próprio potencial ou são impedidas de viver a plenitude do sexo pelas amarras do preconceito, pelo falso julgamento do “certo e errado” e, até mesmo, pela falta de conhecimento com o próprio corpo. Não existe o certo e o errado numa sexualidade saudável; existe sim, o somatório do “querer, poder e bom senso!” Foi pensando nessas pessoas que precisam de um “empurrãozinho” para liberar a libido, nossa força criativa, que escrevi “Sexo sem Amarras”.

Ter uma vida sexual ativa é importante para manter o equilíbrio emocional?

Com certeza. O sexo é um grande fator de equilíbrio emocional. Necessitamos tanto dele quanto do pão que nos alimenta e nos mantêm vivos. Ele está presente em nossas vidas continuamente - estejamos acordados ou dormindo. Uma vida sexual satisfatória contribui para o equilíbrio emocional e vice-versa diminuindo a ansiedade, depressão e baixa-estima. Podemos até mesmo avaliar nosso grau de equilíbrio pela qualidade de prazer e satisfação manifestados na atividade sexual. Quem vive estressado ou irritadiço pode, inclusive, encontrar no sexo um meio eficaz e prazeroso para relaxar - literalmente! E deve ser praticado de forma consciente e intensa.

O que pode acontecer quando “freamos” nosso apetite sexual?

A libido é uma energia ligada ao instinto sexual. A intensidade dessa energia varia de pessoa para pessoa. Não se deve “frear” ou “distender” essa força - isso pode acarretar um desequilíbrio físico e emocional. Cada um deve conhecer sua potência sexual e usá-la de modo natural e espontâneo. Existe quem se satisfaça com uma relação sexual por mês enquanto outra pessoa pode necessitar do sexo diariamente.

E quando fazemos o oposto?

Aqueles que possuem, por natureza, uma libido muito intensa é aconselhável deixá-la fluir. Agora, quando o apetite sexual é tão forte que causa incômodo, sofrimento, seguido de sérias conseqüências interpessoais, familiares, e até mesmo, financeiras, podemos estar diante de um quadro psiquiátrico.

Até que ponto é possível (e saudável) satisfazer todos os sonhos eróticos?

Todos os nossos sonhos eróticos fazem parte de um universo muito amplo e saudável. A capacidade de fantasiar fomenta e melhora a qualidade das sensações eróticas e do orgasmo, além de fortalecer o relacionamento, a cumplicidade e intimidade do casal. Mas não é necessário vivenciar todas elas em nome da plenitude sexual. Uma pessoa pode ser plenamente realizada na cama sem pôr em prática as fantasias “mais picantes” que povoam sua mente. Outras, no entanto, procuram vivenciá-las. Trata-se de uma decisão pessoal onde deve se levar em conta a maturidade, capacidade, “possibilidade” e o querer de cada um. Existe uma fronteira saudável entre as fantasias e desejos que compõem o plano imaginário e as que compõem o plano concreto. Cada indivíduo deve conhecer e respeitar essa fronteira. Esse é o caminho para uma vida sexual satisfatória e feliz.

Você está se referindo a famosa liberdade sexual?

Muitas pessoas confundem o termo liberdade sexual com o “pode tudo”. Não é bem assim. Sempre há limitações pessoais na sexualidade autêntica e livre, e o contrário disso pode, inclusive, nos apontar a desvios emocionais. A realização de algumas fantasias que deveriam ter ficado no plano imaginário pode gerar culpa, arrependimento e uma série de “dores de cabeça”. Não considero saudável um prazer que venha acompanhado de desprazeres para si ou para os outros. Alguém pode ser livre para fantasiar o que quiser com “a mulher do chefe”, mas seria estupidez colocar tais fantasias em práticas sem, ao menos, analisar as conseqüências. Cada pessoa deve decidir o que pode e deve fazer na cama após colocar na balança as conseqüências de sua escolha. Se, por acaso, as conseqüências forem imprevisíveis, a decisão é pessoal. Em minha opinião, liberdade sexual representa a soma de maturidade, prazer, querer e bom-senso!

Você escreve e já citou sobre respeito ao querer. Acha que as mulheres respeitam os próprios desejos?

Algumas mulheres sabem bem o que querem e vão fundo! São decididas, seguras, sabem dizer “sim!” e “não!” em conformidade com os próprios desejos e limites. Normalmente, elas vivenciam a sexualidade de forma autêntica e livre, usufruindo ao máximo a satisfação a dois. Outras, ainda estão se abrindo e descobrindo o que gostam e o que querem em termos sexuais. Dentre elas, encontramos as que dizem “sim!” porque querem e podem dizer, e outras, que dizem “sim!” apenas para agradar. Fazer “concessões” é muito bom, desde que some prazer aos dois e não gere incômodo, insatisfação ou arrependimento. O desejo de um nem sempre é igual ao do outro.

Por Sabrina Passos (MBPress)

Comente