Sexo - reflexões do psicoterapeuta Flávio Gikovate

Sexo  reflexões do psicoterapeuta Flávio Gikovate

Foto: divulgação

Quando já se tem propriedade para falar de um assunto, muita gente se acomoda, deixa de estudar, esquece de rever os próprios conceitos. E esse definitivamente não é o caso do psicoterapeuta Flávio Gikovate, que lança agora seu 33º livro sobre um assunto que domina bem - sexo - retomando do zero as reflexões quanto ao tema.

Depois de reinventar a lógica do relacionamento, tema do livro "Com final feliz" (MG Editores, 2008), o autor chega a conclusão de que o adulto moderno tem duas opções na intenção de se livrar de relações possessivas do amor convencional. Uma é viver só, com vínculos afetivos e sexuais superficiais. Outra é formar laços que respeitem a individualidade.

Se os dois parecem complicados pra você - um pela superficialidade e outro pelo desprendimento - talvez você precise mesmo ler "Sexo", a nova obra do autor, também editado pela MG (e lançado dia 28 de agosto). Nele, Flávio revê com seriedade muitos conceitos fechados sobre a sexualidade. "Isso é muito difícil, já que o sexo sempre foi, ao longo de toda nossa história, um dos temas mais regulamentados", diz. Mesmo assim, lembra que se vive hoje numa época onde os limites são muito menores e os tabus bem menos grosseiros.

À primeira vista, diz ele, a impressão é a de que os preconceitos diminuíram. "Mas ainda falta muito para nos livrarmos dos que circulam em torno do sexo e de sua prática", afirma. "A premissa de que a emancipação sexual criaria condições para que fossemos mais felizes, amigos, solidários e competentes para amar não se mostrou verdadeira na prática".

Por isso, a tentativa agora é analisar diversos fenômenos ligados à sexualidade humana, como a agressividade, a vaidade e os jogos de poder envolvidos na prática da sedução. No livro, Gikovate mostra que o sexo é motivo de enormes preocupações como competência sexual, a capacidade de agradar eventuais parceiros e o desejo de corresponder aos padrões da sociedade. "Tenho conhecido poucas pessoas satisfeitas com o que têm em todos os quesitos valorizados pela cultura contemporânea", diz. "Mas o ser humano sexualmente livre é aquele que não está preocupado com sua performance, não se compara com padrões externos nem se sente obrigado a concordar com pontos de vistas divergentes do seu".

O psicoterapeuta afirma ainda se apegar a velhos pontos de vista e rejeitar tudo o que é novo, principalmente quando o assunto é sexo, é mais comum do que se imagina. Um pouco por culpa de crenças que vêm de longe, fruto da tradição religiosa e dos preconceitos mais tradicionais, ou até pensamento psicanalítico mais recente, que se estabeleceu ao longo do século XX. "Assim, sexo e amor continuam a ser entendidos como parte do mesmo impulso instintivo, quando, na verdade, são impulsos autônomos - e não raramente antagônicos", explica o autor. A maioria das pessoas, segundo ele, não conseguem enxergar a diferença.

Gikovate escreve também sobre a vaidade, que classifica como prazer erótico de se exibir e despertar admiração, e sobre as diferenças entre desejo e excitação. Ele propõe reconsiderar a louvação atual do desejo, a serviço da valorização do sexo casual, da preservação do egoísmo e da imaturidade emocional.

As condições para um efetivo relacionamento interpessoal, segundo o psicoterapeuta, só acontecem quando existe um envolvimento sentimental que pode ser acoplado ao sexo. Nesse caso, diz ele, o sexo se torna secundário. "No mundo do desejo ele é protagonista. Cabe a cada um decidir como se posicionar".

Trechos da obra:

"O poder sensual feminino depende da existência de um intenso desejo visual masculino, que é sentido como uma ordem".

"Acho que elas [mulheres] ainda não se aperceberam da maravilha que fizeram e do privilégio da condição que construíram para si mesmas ao longo de milênios que nos separam da pré-história. Os homens, perdidos, não podem deixar de ficar perplexos e paralisados diante de alterações tão radicais".

"Acho que sobrou, dos anos 1960, além da calça jeans, a ideia de que o sexo é o que de mais relevante temos para fazer na vida".

"Depois do ato sexual [casual] o homem, desprovido do desejo, volta a ser o senhor; a mulher, por ter aceitado aquela intimidade, se desvaloriza e passa a se sentir por baixo. Espera o telefonema do dia seguinte como fato que resgatará sua dignidade. (...) Que vantagem homens e mulheres experimentam nesse tipo de intimidade fundamentada essencialmente na disputa de um poder mais que momentâneo?"

"A tolerância excessiva e indevida não é virtude, uma vez que reforça a pior parte da alma das pessoas com as quais convivemos".

"A idealização presta o grave desserviço de aumentar as supostas virtudes do amado de tal forma que nos sentimos pequenos diante dele. Se para a mulher isso não implica em dificuldades na área sexual, do ponto de vista masculino parece se tornar algo insuportável, inclusive grande ferida no orgulho, gerando inseguranças e medos que impedem a ereção".


"O desejo, ao menos o masculino, dificilmente se constrói por meio do seu acoplamento ao amor. O que acaba acontecendo é o momentâneo esvaziamento do conteúdo romântico da relação e sua substituição pelo da vulgaridade e baixaria tão ao gosto do erotismo próprio da nossa espécie e cultura. Talvez as mulheres tivessem mais facilidade de se encontrar sexualmente num contexto romântico, mas penso que voltar a se sentir desejadas por seus atributos físicos também corresponde ao reencontro com um tipo de prazer bastante gratificante".

Por Sabrina Passos (MBPress)

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