Qual o limite da cantada?

cantada

Foto: Istock

O VilaMulher falou da pesquisa fiu fiu sobre cantadas feita pela jornalista Karin Hueck e, segundo os resultados, 83% das mulheres entrevistadas não acham positivo esse tipo de investida masculina. Mas a reação da mulher depende do tipo de cantada, vocês não acham?

Fátima Bernardes também abordou o assunto em seu programa recentemente e os convidados foram unânimes em dizer que a reação depende da cantada e do jeito educado do homem ao se aproximar. O programa chegou a fazer uma enquete. No começo, 61% dos telespectadores não consideravam a cantada algo legal, mas ao final da conversa sobre o tema o número caiu para 48%.

Camila*, de 30 anos, contou que se sentiu lisonjeada com uma cantada que recebeu ao passar pela rua anos atrás. "Estava indo em direção ao ponto de ônibus e avistei um rapaz parando numa loja de acessórios femininos. Quando me acomodei ao lado das demais pessoas que estavam no ponto, ele se aproximou de mim, disse que eu era muito bonita e queria me dar um presente. Há tempos ele me observava eu nem havia reparado. Fui educada e agradeci, sem prolongar a conversa. Não o vi mais, mas ainda tenho a presilha."

A terapeuta comportamental Ramy Aramy pensa que as mulheres gostam de receber cantadas quando estas são divertidas, agradáveis, pois "levantam o astral". Significa um certo interesse do homem pela mulher. "Agora, quando a cantada é vulgar, desrespeitosa, se torna algo perigoso e agride a mulher, causa traumas, medos, raiva, indignação. Acredito que nenhuma mulher que se respeite aceita um tipo de cantada desta. Quando há toque corporal piora muito, pois invade a intimidade da pessoa."

Aline, de 26* tem duas histórias para contar sobre cantadas péssimas. Uma vez ela ia para a faculdade de ônibus. Um menino se sentou ao lado dela e tentou puxar papo. A conversa não teve nada de anormal. Só que quando ela desceu o menino a seguiu. "Agarrou meu braço e pediu um beijo. Disse que não e justifiquei da forma mais simples possível: ‘porque tinha namorado e porque não queria’", contou.

"Continuei andando em direção à faculdade e ele atrás, tentando segurar meu braço de tempos em tempos, falando que também tinha namorada, que era normal e blá-blá-blá... Só me livrei da criatura quando entrei na faculdade e me enfiei entre os seguranças. Acho que nem preciso explicar porque não gostei, né? Ser perseguida é péssimo, para não dizer assustador!"

Em outra situação, Aline era mais novinha e voltava da escola a pé. Estudava perto da Rodovia Raposo Tavares, numa região cheia de motéis. Um dia parou um carro ao seu lado e, como ela achou que fosse para pedir informação, parou também. "O motorista estava sem calça, segurando o pênis e me perguntou em qual motel eu queria ir... Eu era novinha e fiquei bem assustada. Na hora, só sai andando rápido e fui para casa. Mas depois fiquei naquela neura que ele podia ter me seguido ou que, como eu sempre passava por lá a pé no mesmo horário, poderia aparecer de novo e fazer algo mais ‘agressivo’", lembra.

A advogada do escritório Fernando Quércia Advogados Associados, Marissol Crepaldi, diz que a cantada se torna um assédio sexual ou moral quando o ato constrange alguém com a finalidade de obter vantagem ou favorecimento sexual. Já o assédio moral é notado quando alguém é exposto a situações humilhantes e constrangedoras, repetitivas e prolongadas, que afetem a dignidade psíquica da vítima.

"No ambiente de trabalho quem pratica assédio sexual deve ter um emprego, cargo ou função superior àquele que foi constrangido. E o assédio moral pode ser praticado por um superior, por colegas da mesma hierarquia, por um subordinado ou ainda por um grupo de pessoas", explica a advogada.

Fora do ambiente de trabalho, o assédio sexual e moral se configuram quando a mulher se sente constrangida ao andar na rua ao ser chamada de "gostosa" ou receber um "fiu fiu" sem que este seja seu desejo. "Muitas vezes o susto e o fator surpresa faz com que a mulher tenha uma reação atrasada ou até mesmo fique sem reação", comenta Ramy. "Infelizmente esses casos são comuns e, até mesmo, muito antigos. A mulher sempre foi molestada no trem, no ônibus, no metrô e até no tão antigo bonde."

Diante de situações como essa, a terapeuta comportamental acha que a mulher deve procurar se proteger, buscando ficar mais próxima a outras pessoas. Falar alto sobre o ocorrido também ajuda outras mulheres a se protegerem. "Agressões desse tipo, quando chegam a ser uma constante, se tornam um sério problema para a mulher lidar, chegando a afetar sua autoestima. Sem contar que ela pode transferir uma imagem ruim do homem para todos os outros", opina Ramy.


Dra. Marissol diz que a prova da ocorrência do assédio moral ou sexual são difíceis de se conseguir, já que muitas vezes a ação do agente ocorre de forma camuflada e sem testemunhas. "Por isso, os tribunais têm admitido gravações de conversas como prova da ocorrência do fato. E importante: essa gravação deverá ser feita pela vítima, considerando-se ilícita a interceptação de conversas de terceiros e por terceiros", diz. A vítima deve reunir o máximo de testemunhas possível, para que essas possam relatar em uuízo a ocorrência do assédio sexual e/ou moral.

A pena para o crime de assédio sexual é de detenção de um a dois anos, e a pena é aumentada em até um terço se a vítima for menor de 18 anos. Já a condenação por assédio moral depende da análise do juiz. "O assédio moral não está contido no ordenamento jurídico brasileiro, mas há condutas descritas no Código Penal que podem ser utilizadas de forma equiparada ao assédio moral", lembra a advogada. Nos dois tipos de assédio cabem ainda a reparação por danos morais, que resultam num pagamento em dinheiro à vítima.

Juliana Falcão (MBPress)

*Os nomes foram mudados para preservar as fontes.

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