O abuso deles de cada dia

O abuso deles de cada dia

Foto: Reprodução/ Facebook/ Marcha das Vadias Sampa

Durante a Marcha das Vadias (manifestação internacional que protesta contra a crença de que as mulheres que são vítimas de estupro "pedem" para ser estupradas com base em suas vestimentas), mulheres de diferentes idades, estado civil, credo e cor empunham cartazes ou escrevem no corpo sobre o direito ao uso do mesmo como bem entender. "Meu corpo, minhas regras!"

E se por um lado é uma vitória poder sair às ruas clamando por nossos direitos, ao mesmo tempo é triste que em pleno século XXI ainda seja necessário lembrar aos homens dos mesmos.

Infelizmente, o abuso contra a mulher é diário e nem sempre a violência se mostra como agressão física. Na maioria das vezes é velado, disfarçado em um hábito cultural e nós mesmas a maioria das vezes calamos para evitar aborrecimentos.

Crescemos ouvindo deles as cantadas mais absurdas, com os mais descabidos adjetivos sobre o nosso corpo, na maioria das vezes muito mais constrangidas que lisonjeadas, mas... Quem disse que se importam?!

"Carros que passavam mais devagar do meu lado e, lá de dentro, eu só ouvia uma voz masculina: "gostosa!". Homens sozinhos que cruzavam a calçada, olhavam para trás e suspiravam: "que delícia." Eu tinha treze anos. Usava calça comprida, tênis e camiseta. Agora, multiplique isso por todos os dias da minha vida. Sei que para homens é difícil entender como isso pode ser violência. Nós mesmas, mulheres, nos acostumamos e deixamos pra lá. Nós nos acostumamos para conseguir viver o dia a dia." - trecho do texto "Como se sente uma mulher", da fotógrafa Cláudia Regina

Dos pejorativos "limõezinhos" crescendo, que particularmente em minha adolescência eu tinha vontade de sumir e me esconder em meu próprio abraço envergonhado cada vez que ouvia isso, ao falso interesse inocente: "Está com frio?", que mascara uma conotação erótica, insinuando (quase sempre) um desejo pelo interlocutor que não é verdade.

Quem disse que nossa "não reação" é consentimento? Engana-se aquele que pensa que aquela viradinha de cabeça, quase cultural, cada vez que uma de nós passa é apreciada. Na maioria das vezes é ultrajante... E cantadas do tipo, se eu te pegasse faria isso ou aquilo assustam muito mais que seduzem.


Mulheres gostam de elogios sim, mas receber elogios de quem escolhemos interagir está muito longe das cantadas sujas que temos que aturar no dia a dia.

O dia que os "Dom Juans" da vida entenderem que o direito deles de expressão deixa de sê-lo no momento que ultrapassa o nosso direito de ir e vir em paz, sem medos... Certamente seremos muito mais felizes!

Beth Vieira é designer de moda por formação e webwriter por paixão. Uma loba em pele de cordeirinha que desde 2003 escreve sobre erotismo e comportamento sexual na web. Contato: beth.vieira@gmail.com

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