Mulheres e orgasmo - em qual estágio chegamos?

A evolução do orgasmo

Foto: Tetra Images/Corbis

Não importa em qual século ou em qual grau de maturidade a mulher se encontra. O orgasmo ainda é um tabu para ela e uma parcela considerável do sexo feminino ainda tem dificuldade em discutir o tema e também em atingir este que é o clímax do prazer.

Se voltarmos no tempo, na idade antiga, época das guerras medievais, podemos perceber que naquela parte da história havia uma forte repressão ao prazer feminino. A psicóloga e terapeuta sexual, Arlete Gavranic, nos ajuda nesse resgate histórico e lembra do uso do cinto de castidade. "Existia uma preocupação com uma possível traição. O acessório era uma forma de dominação, de evitar o prazer da mulher. Sem o prazer, ela não sentiria desejo de trair."

O grande anseio dos homens da época era que a mulher fosse uma boa parideira, que desse ao marido filhos nobres e com braços fortes para trabalhar. Numa vertente religiosa, o sexo também não era fruto de prazer, apenas um meio de procriação. E quando analisamos o prazer feminino tendo como cenário a África, mais precisamente as tribos africanas, ou ainda os países islâmicos, Dra. Arlete comenta que as práticas dominadoras eram muito mais severas.

"Sabia-se naquele tempo que a estimulação do clitóris produzia prazer. Por isso, nesses locais existia a prática da clitoridectomia (retirada do clitóris)", comenta. É importante lembrar que muitas mulheres ficavam estéreis ou até morriam, por conta dos meios arcaicos que eram usados para tal. "Sem o clitóris a mulher passaria a ter um comportamento servil e seu companheiro não teria medo de ser traído", completa.

A sexualidade da mulher passou a ser mais discutida na década de 60, com a ajuda de Master e Johnson (William Howell Masters, médico, e Virginia Eshelman Johnson, psicóloga). A dupla se empenhou em estudar a sexualidade humana e chegou à conclusão de que o orgasmo seria a terceira etapa da sexualidade. Antes viria o desejo e a excitação.

Essa excitação vem também da masturbação, ainda um obstáculo para parte do público feminino. "Há ainda uma repressão grande ao toque corporal, são expressões relacionadas a nojo e medo da dor. Ora, a mulher que conhece o próprio corpo, que se estimula, sabe que o toque pode ser algo muito prazeroso", diz a psicóloga. "Desses 30% de mulheres que nunca atingiram um orgasmo, muitas nunca se tocaram em busca de estimulação prazerosa."

Grande parte das mulheres se refere ao orgasmo vaginal de maneira errada. O que acontece é que a fricção do pênis no momento da penetração estimula a região clitoriana. "Algumas mulheres percebem que, durante o orgasmo, a sensação intensa de prazer se irradia por toda a vulva, provocando uma contração vaginal. Mas não é o orgasmo vaginal. Este sai de dentro da vagina", explica a terapeuta. "Outras ainda só conseguem ter orgasmo por meio do sexo oral. Existem discussões sobre uma enervação maior na parede da vagina de algumas mulheres, mas ainda não há nada conclusivo."

Dra. Arlete acha ainda que, apesar dos tempos antigos terem podado a mulher, eles não são 100% culpados pela falta de autoconhecimento e libertação femininos. Hoje a mulher tem acesso à informação, seja pela internet, seja por meio das revistas das bancas de jornais. "Vejo mulheres bem instruídas que não conhecem a própria anatomia. Em que mundo nós estamos?"

Prazer sexual = autoestima elevada

Quanto mais a mulher se conhece melhor sua autoestima e autoconfiança na cama e fora dela. Dominar os caminhos prazerosos do próprio corpo faz com que ela se goste mais, se sinta mais sensual e atinja o orgasmo com ou sem um companheiro. A parceira que não conhece o seu prazer vai depositar toda a sua expectativa no parceiro que, quando não atende às expectativas, se sente incompetente, o que é ruim para a relação.

Há quem ache excitante uma parceira que sabe se dar prazer, mas uma parcela masculina ainda teme essa liberdade sexual da mulher. Dra. Arlete lembra que há homens, por exemplo, que não admitem a automanipulação ou o uso de brinquedos eróticos, como vibradores e massageadores, porque querem dar conta de tudo. "Eles ainda se assustam, acho que a inclusão de um acessório significa que o empenho dele não é suficiente, quando na verdade isso é pura ignorância e fruto de baixa autoestima. É muito importante para a mulher saber atiçar o próprio desejo. Quando isso acontece ele também usufrui."

O sexo não é o que move a vida a dois, mas um bom entendimento na cama contribui para um maior vínculo afetivo entre as partes. Aos poucos o casal vai acertando a química por meio do autoconhecimento e do conhecimento do corpo do outro. "Casais sexualmente perfeitos têm relações mais estáveis. Os parceiros precisam ser afetivamente e culturalmente acessíveis", afirma a especialista.


É importante a mulher mostre o que gosta e como gosta, perguntar para o parceiro o que ele gosta e como gosta. Deixar bilhetes dizendo que a noite foi boa, que o jeito como o sexo foi feito foi prazeroso, que deve ser repetido são fatores de fortalecimento de vínculo do casal.

"Do ponto de vista sexual, a mulher evoluiu muito mais do que o homem. Enquanto o homem aprendeu apenas a ser mais carinhoso, a mulher vem superando seu passado de repressão e dominação. Ela tem permitido se conhecer mais. Em que estágio nos estamos ainda é difícil definir, mas é fato que, desde a década de 60, uma mudança crescente vem acontecendo", finaliza Dra. Arlete.

Por Juliana Falcão (MBPress)

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