Luz deL Fuego - transgressora

Luz deL Fuego  transgressora

Imagem do livro "A bailarina do povo", de Cristina Agostinho (Ed. Best Seller)

Se hoje as mulheres têm direitos garantidos, podem assumir sua posição no meio da liberação sexual sem tantos tabus, muito devem a mulheres transgressoras que viveram antes delas. Infelizmente, muitas dessas representantes da ousadia, sempre a frente do seu tempo, acabam esquecidas entre as páginas da história. Então, para saber mais sobre algumas delas, o Vila Dois foi pesquisar nos arquivos da memória. A viagem pela história vale o suspiro.

O livro “Luz del Fuego - A bailarina do povo”, de Cristina Agostinho, conta que a capixaba que dá nome a publicação nasceu na verdade como Dora Vivacqua, em 1917. Aos 12 anos já mostrava que não seria fácil. A menina não aceitava ordens e nem opiniões sobre sua vida. Três anos depois perdeu o pai, assassinado, e queria ir embora para o Rio de Janeiro. A pequena Cachoeiro do Itapemirim, onde nasceu, era pequena demais.

Abominava o uso do sutiã e desfilava pela praia de calcinha e bustiê improvisado com lenços quando o biquíni ainda estava longe de fazer parte do guarda-roupa nacional.

A década ainda era de 30 quando Dora viveu seu primeiro romance. Na mesma época, foi vítima de abuso sexual e, desacreditada, acabou internada num hospital psiquiátrico em Belo Horizonte.

Aos 19, Dora foi morar com um dos irmãos, numa fazenda, e acabou seduzindo o filho do administrador do local, vestida de ‘Eva’ - com folhas tampando os seios e a púbis. O irmão ficou horrorizado, mas ela não se detinha. Chegou a jogar um vaso na testa do irmão! Revoltada, acabou internada novamente numa casa psiquiátrica do Rio de Janeiro.

Em 1937, retomou o romance com o primeiro amor, sem oficializar. Nessa época, aventurou-se como pára-quedista, mas foi logo proibida pelo namorado. Aceitou esse primeiro pedido do amado, mas não aguentou quando decidiu fazer um curso de dança e foi mais uma vez proibida. Decidiu que era hora de assumir as próprias vontades.

Aos 27 anos, Dora tinha se transformado na bailarina mais sexy e corajosa das Américas e estreou como Luz Divina, no palco do picadeiro de um circo. Depois de dois anos, fazia seu próprio espetáculo. Por sugestão do amigo e palhaço Cascudo, Dora mudou o nome para Luz del Fuego, em referência a um batom argentino recém-lançado no mercado. Segundo o amigo, “nome estrangeirado atraía público”. Dora gostou da sugestão.

Depois de ajudar muitos circos a sair da falência, ela se arriscou no teatro. Um dos irmãos de Luz era senador e não gostava da carreira nada tradicional da irmã. Ainda mais quando ela publicou seu diário, com trechos comprometedores, como a sedução pelo cunhado e fatos que aludiam a uma prostituição assumida. O irmão conseguiu comprar mais da metade da edição - mil exemplares - e colocar fogo nos volumes.

Em 1948, ela publicou “A Verdade Nua”, também autobiográfico, e no qual lançava as bases de sua filosofia naturista. A família não precisou se preocupar desta vez. As próprias autoridades deram sumiço no livro. A segunda edição foi vendida por reembolso postal. O dinheiro serviria para arrendar uma ilha na qual instalaria a sede de seu clube naturalista.

Imagine propagar o naturalismo e a ideias do vegetarianismo em plena década de 50? O Brasil ainda não usava maiô de duas peças e o culto ao corpo se resumia aos concursos de beleza. Mas ela escrevia e dizia para quem quisesse ouvir, exatamente aquilo que pensava: “Um nudista é uma pessoa que acredita que a indumentária não é necessária à moralidade do corpo humano. Não concebe que o corpo humano tenha partes indecentes que se precisem esconder”.

Entre a vontade de permanecer nua e de estar em evidência ela encontrou um ponto de equilíbrio torto. Na primeira metade dos anos 50, já era conhecida por todo o país e chegou a ser capa da revista “Life” americana. Doava rendas dos espetáculos para instituições e fazia leilões de si mesma. Foi multada e detida para interrogatórios várias vezes. Criou o Partido Naturalista Brasileiro e conseguiu isto à custa de espetáculos gratuitos, seminua, nas escadarias do Teatro Municipal.

Nessa época, Luz seduziu o ministro da Marinha para garantir a cessão de uma ilha para a sede de sua colônia, batizada de “Ilha do Sol”. Quase nos anos 60, a Ilha era uma das grandes atrações do Rio de Janeiro, mesmo sem fazer parte dos roteiros turísticos oficiais. “Se de vez em quando Luz perdia o controle sobre os sócios no cumprimento das normas do Clube Naturalista, havia um mandamento sagrado do qual ela jamais abriu mão: o da nudez total”, descreve Cristina em seu livro

Mas com a idade já avançada e sem muito mais dinheiro, perdeu a fama de mito. Os amantes já não eram ricos e influentes. Envolveu-se então com pescadores e guardas portuários e, mesmo com o alerta dos amigos sobre esses envolvimentos, dizia: “Eu sou uma Luz que não se apaga”.


Quando tinha 50 anos, os irmãos Alfredo Teixeira Dias e Mozart “Gaguinho” armaram uma emboscada para Luz del Fuego. No dia 19 de julho de 1967, Mozart atraiu Luz ao seu barco e a matou. O crime só foi desvendado duas semanas depois.

Poster do filme Luz del Fuego com Lucelia Santos

Poster do filme "Luz del Fuego" com Lucelia Santos

Além de livros, parte da vida de Luz del Fuego acabou virando filme, com seu nome, mas ele não pode ser chamado de biográfico. Lançado em 1982, teve Lucélia Santos no papel principal e ganhou vários prêmios no Festival de Gramado. Hoje, pode ser encontrado em DVD. Os naturistas até hoje celebram o nome de Luz, em encontros realizados pelo Brasil.

Por Sabrina Passos (MBPress)

Comente