"Encoxadas" no transporte público, até quando?

transporte publico assedio

Foto -Jornalhojelivre.

Pegar um trem ou metrô lotado é a realidade de muita gente que sai para trabalhar pelo Brasil afora. E diante dessa situação muitos homens aproveitam para abusar das usuárias do transporte público. Por meio das chamadas "encoxadas", eles assediam as mulheres, mais do que isso organizam e compartilham suas investidas nas redes sociais.

Na segunda-feira (17), Adilton Aquinio dos Santos, de 24 anos, estudante universitário desempregado, foi preso em flagrante depois de abusar de uma mulher de 30 anos na estação Luz da CPTM. Ele foi espancado por outros homens que passavam pela estação até ser preso pelos seguranças do trem.

Em entrevista ao "Estadão", Adilton "justificou" seu ato: "Infelizmente, foi um fato. Estava muito apertado (no trem) e eu não aguentei". O rapaz que disse nunca ter feito isso antes, teria cercado a mulher em um canto do trem e torcido seu braço para que permitisse o abuso. Segundo a denúncia, ele forçou parte da calça da vítima para baixo, colocou seu orgão genital para fora e ejaculou em suas pernas. Adilton disse ainda que frequentava sites que incentivavam este tipo de atitude nos trens, metrôs e ônibus pelo Brasil.

"Eu já fui assediada no trem por um senhor de idade que fazia gestos obscenos com as mãos e a língua. Na hora em que aconteceu gritei e pedi ajuda. Imediatamente homens que estavam por perto ameaçaram bater no homem", conta Priscila, de 29 anos. "Só não aconteceu uma tragédia porque o desembarque já estava próximo. Ainda assim não recebi nenhum tipo de ajuda dos seguranças da estação de trem, mesmo depois de contar o que tinha acontecido."

Camila, 25 anos, felizmente não passou por isso, mas já presenciou uma cena dentro de um ônibus. "Um homem se ofereceu para segurar a bolsa de um monte de gente. Colocou em cima do colo para esconder as mãos e ficava passando a mão na perna e levantando a saia da menina que estava sentada ao lado dele", conta. "Deu escândalo, principalmente porque ninguém desconfiaria de alguém que foi tão gentil segurando a mochila de tanta gente."

Por que o assédio ainda continua?

Sem eleger um culpado, Camila pensa que, por mais que o transporte público seja ruim e caótico, não acredita que dá para acusar o trem, ou a educação, ou falta de emprego, ou qualquer um dos problemas sociais que existem no País. "Acredito que o problema seja uma questão de índole. Senão, toda vez que o trem tiver apertado demais vai acontecer isso? Não é justificativa válida."

Marisa*, 23 anos, nunca viveu ou presenciou atos desse tipo, mas sabe muito bem que eles existem e tenta se prevenir. "Sempre fico olhando à minha volta. Em local cheio tenho preferência de ficar perto de mulheres ou perto das portas".

Camila concorda: "A gente fica preso a essas situações: não dá para simplesmente parar de andar de trem, nem evitar horários muito lotados. A única coisa é ficar sempre atenta mesmo, não ter vergonha de pedir ajuda quando necessário". Priscila orienta a mulher a procurar a polícia e pedir ajuda. "Qualquer ato que dê prazer para apenas uma pessoa é considerado abuso sexual."

Grupos organizados nas redes sociais.

No Facebook, algumas páginas que incitavam o ato já foram tiradas do ar, mas ainda existem muitos grupos fechados na rede que compartilham histórias e fotos de encoxadas e também perfis de homens que se intitulam encoxadores. As páginas também são seguidas e curtidas por mulheres.

Em uma das páginas bloqueadas um usuário disse que fazia tempo que não "brincava por aí" e chegou a dizer que da próxima vez que fosse pegar o trem iria sem cueca e de calça tactel para dar "aquela encoxada". Comentou ainda que faz com discrição e só se aproxima de mulheres que consentem o ato.

"É uma situação lamentável. Esses casos têm que ser apurados pelo governo e pela segurança. As páginas que incentivam a prática devem ser denunciadas", diz Marisa.

Já Camila acha que esse tipo de situação não vai desaparecer. Isso porque as pessoas, no final, acabam adotando o discurso politicamente correto, mesmo que suas atitudes sejam totalmente opostas. "A mulher não tem respeito e não é valorizada, mas todo mundo fala que é, como uma forma de esconder o problema, em vez de resolvê-lo."


Por Juliana Falcão (MBPress)

Comente