Em Detalhes

Me pergunto se de fato tudo aquilo aconteceu ou se estou inventando. O interesse mútuo, o tremor, as palavras de duplo sentido, o dia em que falamos sobre o café e bancos de couro vermelho e você enfim admitiu que morreu de vontade, e disse que queria ter me beijado no escuro, no carro, aberto minha blusa. Eu me lembro da blusa. Você contou em detalhes o que faria comigo se tivesse cedido à sua vontade, a vontade que também era minha e que ainda hoje me esquenta. Em detalhes. Nunca mais falamos sobre isso, e me pergunto se de fato aconteceu.

Ontem, no ônibus, um homem sentou ao meu lado e encostou o braço esquerdo no meu braço direito. O ônibus estava cheio e eu só pensava em você e queria que o braço encostado no meu fosse o seu braço, porque não devia ser permitido que aquele homem encostasse o braço no meu braço, se você nunca.

Ontem, no elevador, havia um homem, apenas eu e um homem, e pensei em você na mesma hora. E em detalhes. Eu queria que o homem fosse você e que a gente ficasse sozinho pelo menos por oito andares. Eu queria ficar na sua frente e abrir a sua calça. Poderiam ser 80 andares. Mas cinco são o bastante. Tremor.

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