Desejo em baixa

Desejo em baixa

Enquanto para muitas mulheres a falta de sexo pode parecer um absurdo sobrenatural, para outras, é a própria prática que não faz o menor sentido. Essas mulheres, que sofrem de ausência de desejo, se sentem assim por uma infinidade de motivos que pode ter origem orgânica ou ainda influenciada por fatores emocionais e culturais.

A psicóloga e terapeuta sexual Ana Canosa lista uma série de razões para que as mulheres simplesmente não sintam vontade de fazer sexo. Essa ‘disfunção’ atinge mais mulheres que homens por conta primeiramente das características hormonais comuns à fisiologia feminina.

Segundo Ana, outra razão para essa falta de vontade mora na casa da repressão sexual e das questões de gênero, bloqueando a autonomia sexual da mulher, gerando culpa, medo e emoções negativas relacionadas ao sexo. "Falta de conhecimento sobre o corpo, principalmente dos genitais, histórico de violência e abuso sexual e baixa autoestima completam a lista de motivos".

Ela lembra ainda que a associação que mulher faz entre amor e sexo também pode complicar na hora de sentir prazer. "Algumas valorizam o compromisso amoroso em detrimento do prazer sexual e não percebem o sexo como uma energia autônoma", afirma. "O que percebemos é que a vivência sexual da mulher é fortemente influenciada por fatores emocionais e culturais".

Ana relata que algumas mulheres podem sofrer de inibição de desejo em alguma fase da vida enquanto outras relatam simplesmente não achar graça nenhuma em fazer sexo. "Há também as mulheres que só tem desejo sexual despertado durante a relação e não antes dela ocorrer - e isso pode não ser um problema. Por isso a importância de um bom diagnóstico", afirma ela, sugerindo acompanhamento terapêutico ou mesmo ginecológico.

Isso por que a falta de desejo pode ser considerado um transtorno. A Associação Psiquiátrica Americana classifica os "transtornos do desejo sexual" em dois tipos: o hipoativo, que é a deficiência ou ausência de fantasias sexuais e do desejo de ter atividade sexual; e aversão sexual, que é uma esquiva ativa do contato sexual genital com um parceiro.

"No entanto, não basta o sintoma para caracterizá-lo como transtorno. É necessário que o problema esteja ocorrendo há pelo menos seis meses e diagnosticá-lo como primário (sempre ocorreu) ou secundário (a partir de um dado momento passou a acontecer), se é situacional (só acontece em algumas situações, em outras não), total ou parcial", explica.

Ana, que é diretora da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana, comenta ainda que muitas dessas mulheres sofrem com essa situação porque gostariam de sentir algum prazer. Mas há uma parcela que simplesmente não acha a menor graça e, portanto, fica muito bem sem sexo. "Há um terceiro grupo que se angustia porque os parceiros reclamam da falta de interesse", lembra.

A idade também interfere no diagnóstico da baixa libido. "Mulheres na maturidade tendem a não se angustiar com a baixa de desejo sexual, principalmente as que não têm parceiro. Já as mulheres na faixa dos 25 aos 40 anos são as que mais se preocupam quando o desejo desaparece", conta.

Para resolver esse problema, existem alguns tratamentos - amplamente conhecidos quando a disfunção acontece nos homens. "Assim como o sildenafil, princípio ativo do viagra, que inicialmente era estudado como antidepressivo e demonstrou ter efeito sobre a ereção masculina, no ensaio clínico da flibanserina (ou flibanserin) para combate de depressão observou-se ação sobre a libido feminina. A dúvida é se a substância terá efeito em todos os casos de inibição de desejo, principalmente para aqueles provocados por condições emocionais", explica Ana. O estudo foi apresentado recentemente na França, pelo laboratório alemão Boehringer Ingelheim, e parece que o produto pode chegar ao mercado entre o fim de 2010 e o início de 2011.

Segundo Ana, medicamentos à base de testosterona são administrados, principalmente na forma injetável ou tópica (gel, adesivo) e podem auxiliar algumas mulheres, principalmente as que não têm problemas emocionais com a questão sexual.

O viagra feminino - a pílula rosa - ainda não teve sua eficácia comprovada. "Alguns estudos com a substância do viagra (sildenafil) apontam melhora no fluxo sanguíneo da vagina o que favorece a lubrificação e o orgasmo, mas pode não ter necessariamente efeito direto sobre o desejo", afirma Ana.


Outras ações terapêuticas podem favorecer o tratamento, como massagens, exposição ao erotismo, exercícios e práticas que valorizam a intimidade sexual com a parceria amorosa. "A terapia sexual é uma ótima saída, pois além de fazer o diagnóstico, levando em conta as questões físicas, trabalha com o emocional da mulher e do casal e propõe ações focadas no comportamento sexual, trabalhando com o timing e a realidade de cada um".

Por Sabrina Passos (MBPress)

Comente