Daiara Figueroa: a mulher que não mereceu ser estuprada!

Daiara Figueroa a mulher que não merecia ser estup

Foto - Divulgação.

Ela tem 31 anos, é professora, mora em Brasília e tem um filho. Sua história passaria despercebida não fosse pelo depoimento postado no Facebook em meio ao Protesto Online (Eu Não Mereço Ser Esturpada) que movimentou a rede social nos últimos dias. Daiara Figueroa foi estuprada aos 15 anos, no seio da própria família, enquanto morava na Colômbia. Foi assim que ela perdeu a virgindade. Foi assim que ela soube que já era mulher. E foi assim que ela descobriu a sociedade em que vive.

Se hoje Daiara fala sem vergonha sobre a violência que sofreu, já que não foi "culpada por isso", demorou para que se sentisse assim. "Foi muito intenso. Nojo, sujeira, ódio de tudo, lavei minha pele até me esfolar, a sensação de que estava suja durou muito tempo. Eu preferia morrer a lidar com isso, mas nunca me machuquei nesse sentido. Eu queria sumir, evaporar, não queria ser eu", revelou ao "Vila Mulher".

Brasileira, nascida em São Paulo, aos três anos ela viu os pais se divorciarem. Por conta disso, precisou se mudar para a Colômbia, onde morou com a família materna. O abuso sexual foi sofrido por dois familiares e um amigo da família. "Atualmente evito ter notícias. Não pretendo voltar a encontrá-los. E acho que só tenho coragem de me abrir sobre esse assunto por ter a certeza de que estão a quilômetros de distância", assumiu.

Na época, Daiara não chegou a denunciar ou falar sobre o assunto com ninguém. "Fiquei com medo de qualquer coisa que pudesse acontecer: represálias, julgamentos, tristezas."

De volta ao Brasil, a paulista finalmente conseguiu se sentir em casa, como contou: "Foi um alívio, uma fuga que tirou de mim o peso de conviver com meus agressores. Foi aqui que conheci finalmente o amor, a confiança, a intimidade serena e a calma". Daí em diante, ela se abriu com os namorados, que sempre a apoiaram, e conseguiu desabafar com amigos e amigas. E foi assim que se iniciou seu processo de cura, que dura até hoje.

Contar do estupro para sua mãe foi um grande passo também. "Foi uma conversa difícil, mas necessária", pondera. Tudo começou quando a mãe perguntou notícias da família e tocou no nome do estuprador. "Respondi que não queria saber dele, ela perguntou por que e eu contei. Ela demorou a digerir a informação. Ficou calada ouvindo, fez alguns comentários infelizes: perguntou se eu tinha ‘sentido prazer’ pelo fato de ter sido na minha adolescência e eu estar me descobrindo sexualmente. Só esse comentário gerou uma briga que durou semanas.

Hoje eu vejo que na verdade ela não sabia nem como abordar o assunto nem como dialogar a respeito. Foi conversando com amigas dela que são como mães para mim que finalmente conseguimos um diálogo mais tranquilo, ela também me contou de abusos que sofreu."

O resto dos familiares continua sem saber do abuso, a não ser que tenham visto o post de Daiara no Facebook ou alguma repercussão. "Meu pai mora aqui [Brasília], mas não sei se ele e a família dele já ficaram sabendo ou comentaram a respeito", acredita.

O depoimento de Daiara serviu para, mais uma vez, tirar um peso de suas costas. "Contar a minha história ajuda a mim mesma. As dores nunca devem ficar presas na garganta, especialmente em momentos de incômodo, como o causado pelo resultado da pesquisa do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), com resultado de que 65% dos brasileiros acreditam que mulher com roupa curta merece ser estuprada".

Apesar da coragem que teve em expor sua história mais uma vez e receber apoio de diversos internautas, Daiara, assim como muitas outras meninas que participaram do Protesto Online, virou motivo de chacota, foi apontada de participar do movimento só para aparecer pelada na internet e até foi acusada de ter "enganado" as mulheres com uma declaração falsa.

Em relação a isso, ela esclareceu: "Existem pessoas mal informadas que acham que o feminismo e a luta contra a violência da mulher querem tirar vantagem de algo ou oprimir alguém, mas o feminismo não é o oposto do machismo: o feminismo luta por uma realidade mais justa e sensível. As pessoas que fazem piada disso parecem não perceber o quanto elas mesmas são vítimas dessa violência. A violência torna a sociedade doente, desequilibrada, por isso precisamos trabalhar juntos no processo de cura".

"O estupro evidentemente não é apenas um problema íntimo das pessoas, mas um problema social", afirma. Afinal, 80% dos estupros acontece no círculo familiar: são familiares e amigos próximos.

Daiara acredita que as pessoas só vão se conscientizar em relação à violência da mulher quando encararem suas raivas e medos com amor. "A verdade é que por trás dessa violência sempre tem histórias tristes. As pessoas mais desequilibradas e violentas que conheci eram assim para se proteger ou sobreviver a algo", crê.

#EuNãoMereçoSerEstuprada

Graças ao Protesto Online, criado por Nana Queiroz, ela conseguiu mais um espaço para alcançar novas mulheres e homens com seu relato. Militante feminista, acredita que é através do movimento que vamos encontrar uma defesa da igualdade de gêneros e o fim da violência contra a mulher. "Compartilho minha história. Fico atenta a detalhes como gestos, palavras, piadas e comento e faço reflexões sobre isso."

Por histórias como a de Daiara e de centenas de outras meninas, pelo compartilhamento de textos contra o resultado da pesquisa do Ipea e a força de diversos combatentes, o Protesto Online foi um sucesso. Quebrou barreiras e chegou até o Twitter da Presidente do Brasil, Dilma Roussef, que postou: "Organizadora do protesto #NãoMereçoSerEstuprada, Nana Queiroz merece toda a minha solidariedade e respeito. Nenhuma mulher merece ser vítima de violência, seja física ou sob a forma de ameaça. O governo e a lei estão do lado de Nana e das mulheres ameaçadas ou vítimas de violência".

Nesta terça-feira (01), Nana participou do "Encontro com Fátima Bernardes", que discutiu o tema e ainda apoiou o protesto. Celebridades ainda ficaram sabendo do movimento de militância e participaram, como você pode ver na galeria abaixo junto de outras feministas:


Por Alessandra Vespa (MBPress)

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