As relações precisam de nudez

O colunista Ricardo Coiro fala em sua crônica sobre importância de ser transparente nos relacionamentos amorosos

Foto: iStock/ shironosov

Um ser com quem você consiga ficar totalmente – e confortavelmente! – nua. É isso que deve procurar em meio à multidão de apressados e hipnotizados por smartphones. E não estou falando somente da nudez da pele, daquela que deixa os mamilos à mostra: refiro-me, principalmente, à outra nudez, bem diferente e muito mais profunda; que não se resume à falta de roupas, que não aparece em nudes e que dá admirável leveza às relações amorosas.


Antes de buscar um homem que, em vez da barba, faça amor, eu sugiro que procure alguém para quem você possa tirar todas as máscaras, fantasias e armaduras que usa, diariamente, por medo de julgamentos preconceituosos, demissões por injusta causa e para não ser vista como uma extraterrestre em rodas ironicamente formadas por gente quadrada ao quadrado. Já basta o sorrisão que você veste, à força, sempre que o seu chefe lhe pede para arrumar as cagadas que ele faz, não acha?

Eu sei que entradinhas no abdômen são quase tão irresistíveis quanto uma colherada de Nutella, contudo, de nada adiantará tê-las ao alcance de seus dedos se, ao dono delas, você não se sentir confortável o bastante para contar que não sabe nadar, que seu pai é alcoólatra e que você se chama Rosalindalva – e não somente “Rosa”, como colocou em seu perfil do Facebook. Eu sei que ele é a cara do Caio Castro, porém, se depois de um ano de namoro ainda não se sente à vontade nem para dizer que possui “Silva” no RG, que tem dívidas no banco e que nunca pisou fora do Brasil, pense bem. 

Pense muito bem no que está metida! Por quê? Porque passar mais tempo dentro dessa túnica invisível não faz o menor sentido, mulher! Ou vê algum cabimento no pavor que sente de mostrar a sua verdadeira face ao homem com quem divide a cama e a garrafa de água?Intimidade, diferente do que muitos pensam, é muito mais do que fazer cocô de porta aberta, permitir que ele segure os seus cabelos na hora de vomitar e passar domingos inteiros grudada nele, assistindo a séries na TV, sob o edredom. Intimidade é bem mais, aliás! 

Intimidade, de verdade, é ter alguém para quem você não tenha a mínima vergonha de expor seus medos, defeitos, cicatrizes e fraquezas, coisas que você vive a esconder do restante do mundo. Intimidade, de fato, é não sentir necessidade de inventar desculpas malucas para não ir à casa da sogra ou à festa de final de ano da empresa dele; é simplesmente afirmar: “Não tô a fim de ir”. 

Intimidade é não pensar duas vezes antes de dizer: “Não tô legal!”, ou: “Me ajuda, por favor!”. Intimidade é mais do que transar sem medo de ser julgada pelos furinhos que tem na bunda e pelas dobrinhas que possui barriga: é ser sincera quando, em vez de trepar, estiver mais pra um cinema com muita pipoca.

A verdade é uma só: ser uma solteira fiel à própria essência é mil vezes melhor do que viver acompanhada por um cara que lhe dá vontade de acordar cedo para maquiar a olheira, transar de luzes apagadas, evitar conversas sobre seu passado e de disfarçar tudo o que está se passando aí dentro. 

Achar um homem que lhe faça querer tirar a calcinha é fácil, o difícil é encontrar alguém que lhe deixe sem a mínima vergonha de se despir do medo de expor o que você realmente é, sem Photoshop na alma, maquiagem no coração e bojo no que é natural no seu jeitinho de ser.

Por Ricardo Coiro

Ricardo Coiro - Vive entre o soco e o sopro. Morre de medo do morno e odeia caminhar em cima do muro. Acha que sensibilidade é coisa de macho e que estupidez é atitude de frouxo. Nunca recusou um temaki ou um café. Peca todo dia. Autor do livro Confissões de um Cafamântico.

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