A TV no armário

A TV no armário

Quando você liga a televisão, muito do que vê é a imitação da vida, certo? Errado. O que o jornalista Irineu Ramos Ribeiro descobriu, depois de intensa pesquisa, foi que quando se trata da homossexualidade, por exemplo, esse "muito do que se vê" é preconceito e falta de informação. Numa análise da programação das emissoras ele percebeu as dificuldades e equívocos quando as diferenças sexuais precisam ser retratadas na telinha.

No livro "A TV no armário - A identidade gay nos programas e telejornais brasileiros" (Edições GLS), Irineu analisa todo tipo de programa, desde os humorísticos até os jornalísticos, passando pelas novelas. E comprova que a televisão brasileira acaba transmitindo valores negativos e até caricatos no que se refere aos gays. "Os equívocos são a produção distorcida de condutas para a sociedade homossexual. Por exemplo, em novelas, quando aparecem personagens gays, são caricatos ou com conflitos existenciais. E sempre coadjuvantes. Se de um dia para o outro forem eliminados não farão falta nenhuma à trama principal".

Ao longo da obra, Irineu, que é membro do Centro de Estudos e Pesquisa em Comportamento e Sexualidade, discorre sobre o limiar dos gêneros, abordando questões como ambiguidade, identidade, sexualidade e formas de pensar. Relata ainda um histórico do surgimento da TV no Brasil e o levantamento da cobertura jornalística televisiva da Parada do Orgulho Gay de São Paulo. "Procuro demonstrar as sutis abordagens em que o preconceito é estimulado e impede a existência de um mundo onde a diferença seja respeitada", explica.

Em entrevista ao Vila Dois, ele falou um pouco mais da pesquisa que durou dois anos e da necessidade de que os meios de comunicação retratem as diferenças de gênero no sentido de reafirmar a identidade gay e, consequentemente, construir um mundo onde a diversidade seja respeitada.

A TV no armário

Foto: divulgação.

Como funcionou a pesquisa sobre a cobertura dada pela TV à questão da homossexualidade?

A pesquisa foi feita no período compreendido entre cinco dias antes da Parada Gay de São Paulo de 2007 e dois dias depois. Ou seja, a preparação e o rescaldo do evento. Foram clipadas todas as reportagens jornalísticas de todos os telejornais abertos onde a Parada era - de uma forma ou de outra - notícia. Nesse período, a Parada foi notícia 48 vezes e, na maioria absoluta, a abordagem foi negativa ou de tópicos que em nada destacavam a identidade gay. Mas meu estudo incluiu, ainda, vários programas de entretenimento, humor e novela.

As emissoras se pautam mesmo pelo preconceito e pela falta de informação?

As emissoras têm uma grande dificuldade de mergulhar no universo da homossexualidade. É muito mais confortável elaborar matérias a partir de um ângulo já conhecido e aceito socialmente. Partem de um princípio heterocentrado e binário de ver as relações e, portanto, excluem qualquer possibilidade de abordagem fora desse plano. Com isso, reproduzem o preconceito e perdem a chance de romper barreiras e conhecer um universo de pessoas que são exatamente iguais a todas e com direito de serem felizes longe dos estereótipos produzidos pela mídia.

É dado algum espaço à discussão das questões homossexuais?

Em casos muito raros a discussão da questão homossexual acontece em programas de TV. Destaco aqui o papel desempenhado pelo jornalista Caco Barcellos, na direção do Profissão Repórter. Ele tem uma sensibilidade e um respeito inigualável para abordar temas envolvendo as questões de gênero e sexualidade. A reportagem feita por ele durante a Parada, entrevistando uma família de sem-terra composta por duas lésbicas e filhos de uma delas; uma transsexual que trabalhava na Aeronáutica e a família de dois gays que adotou quatro crianças foi realmente fantástica. Uma abordagem inteligente e respeitosa.


Quais os grandes equívocos que ocorrem quando os canais precisam lidar com as diferenças sexuais na televisão?

Nos telejornais da Parada, os entrevistados são sempre as drag-queens, travestis e afeminados. Essas personagens são parte, mas não resumem o universo homo. Ao serem entrevistados, são encaminhados a darem resposta casual, descompromissada e inconseqüente, de um modo geral. Isso cria na sociedade uma visão de que são um segmento pouco confiável e nada sério.

Ocorre que a maioria absoluta dos homossexuais estão distantes deste padrão, constroem famílias, têm filhos e, portanto, são marginalizados na mídia e estigmatizados na sociedade. É papel dos veículos de comunicação romperem com esse preconceito e transitar por esses temas sem fazerem sensacionalismo.

Por Sabrina Passos (MBPress)

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