Oriente e Ocidente

Com a visita ao Brasil do Príncipe Naruhito, herdeiro do Império e a comemoração do centenário da imigração é natural que toda a população tenha se voltado mais para a cultura japonesa que, bem a seu jeito, permeia discreta e elegantemente nossas vidas.

Recentemente deparei-me com um texto do escritor japonês Junichiro Tanizaki que explica que a culinária japonesa não é apenas para ser vista e degustada mas alguns pratos também são dignos de que se pare para meditar um pouco.

É claro que um restaurante japonês (legítimo e não aqueles ambientes fantasiados de “contemporâneos” que testemunhamos às vezes) é sempre um local onde é possível entrar no devido clima de privacidade e/ou calma para que isso ocorra.

Tomemos por exemplo os estímulos visuais: a laca usada para servir e acomodar alimentos, brilhando difusamente a luz de velas ou de lâmpadas cuja luz é amenizada pelo papel fosco e texturizado, trazendo ao ambiente calor e paz.

Ou os recipientes, onde a comida se destaca seja pela profundidade de caldos fumegantes ou pela brancura dos sushis e sashimis artisticamente arrumados como mosaicos.

Mas não pretendo aqui fazer um tratado sobre culinária japonesa e sim pensar sobre as diferenças que em vez de barreiras a nos separar deveriam funcionar como polos a nos atrair, mas que muitas vezes são encaradas apenas como excentricidades.

Ainda, segundo Tanizaki, uma casa japonesa é toda projetada para que seus ocupantes nela se resguardem não apenas do frio e do vento, mas principalmente da luz. Aliás, orientais tem uma relação muitíssimo saudável com a escuridão. Enquanto, para nós ela é sempre um símbolo de trevas e do mal, para eles ela é o abrigo das sombras que, de uma maneira geral são muitíssimo valorizadas pelas nuances e pelo que estas podem ou não revelar em um objeto, quadro, ambiente ou mesmo semblante.

A pouca prata que usam, por exemplo, jamais é brilhante e polida como a ocidental. Ao contrário. Ela começa a ser realmente apreciada apenas quando já adquiriu tonalidades escuras e veios acinzentados, resultantes do manuseio e da oleosidade natural da pele, que eventualmente a toca.

As jóias preferidas e mais valiosas são em jade: uma pedra que jamais adquire o brilho ofuscante das nossas preciosas. Para eles, vale muito mais o sombreado e a profundidade leitosa de uma peça de jade luminoso do que nossas gemas descaradamente brilhantes.

Os orientais são craques em nuances e extremamente sutis. Talvez por essa razão, muitas vezes parecem estar se divertindo ou desfrutando loucamente algo que nos escapa a compreensão. É que, acostumados ao óbvio, muitas vezes deixamos de perceber detalhes incríveis. Basta pensar em sua música, permeada de silêncios. Que na verdade são pausas. Intrigantes, significativas, estimulantes. Porém, como sabemos ouvir apenas o que faz ruído, acabamos cada vez mais entorpecidos por um som que muitas vezes é pura poluição sonora.

Ok, concordo que divaguei e acabei filosofando a partir da crescente inauguração de restaurantes japoneses e/ou orientais com culinária “fusion” como eles gostam de dizer agora. Mas como também estou longe de ser uma especialista em oriente, ao sair de um almoço ou jantar japonês, procuro fazê-lo sempre aos poucos, para não quebrar o encanto de tantas e diferentes sensações percebidas através dos sentidos.

Afinal de contas, porque não fazer uma pausa oriental para meditar em meio a nossa enlouquecida corrida diária?

Jornalista, escritora e palestrante, Claudia Matarazzo é autora de vários livros sobre etiqueta e comportamento: “Visual, uma questão pessoal”, “Negócios Negócios - Etiqueta faz parte”, “Amante Elegante - Um Guia de Etiqueta a Dois”, "Casamento sem Frescura", "net.com.classe", "Beleza 10", "Case e Arrase - um guia para seu grande dia", "Gafe não é Pecado" e "Etiqueta sem Frescura"

Comente