Moda e comportamento

É chic estar na moda

Nesta quarta-feira, 9 de junho, tem início um dos maiores eventos da moda no Brasil: o São Paulo Fashion Week (SPFW). Apesar de fechado ao grande público, o que será apresentado nas passarelas mais uma vez deverá ser traduzido para as vitrines e chegar aos guarda-roupas de homens e mulheres que vivem paralelamente ao mundo fashion. De que forma isso acontece? E como a moda com seus estilos e tendênciasinfluencia a vida das pessoas? Confira na entrevista com Luis Dix, professor de Marketing e Comportamento do Consumidor do curso de Negócios da Moda da Universidade Anhembi Morumbi e do Instituto Arte Moda.

- Qual o caminho que as tendências e estilos apresentados na SPFW percorrem até chegar ao consumidor?

Dix - Existe uma frase que reflete bem a realidade: "O Brás e Bom Retiro estão sempre, pelo menos, 6 meses à frente da Oscar Freire". Isso porque esses são os dois maiores centros atacadistas de moda e precisam estar à frente do varejo. Uma coleção começa a ser pensada quase 1 ano antes do seu lançamento nas lojas, então o que acontece é que num evento como a SPFW as tendências são lançadas para o grande público, mas quem trabalha com isso já sabe do que se trata há um bom tempo. E o que leva essa tendência das passarelas para as vitrines é a mídia! Na hora em que uma novela, série de TV, revistas de cotidiano ou de fofoca mostram personalidades usando, pode apostar que no dia seguinte a 25 de março já terá produtos iguais para vender.

- No mundo da moda nada se perde, tudo é reaproveitado, sejam idéias ou tecidos. De onde nascem as tendências e por que voltam a fazer sucesso quando são relançadas?

Dix - As tendências nascem basicamente de dois lugares: dos bureaux de tendência (principalmente Paris) e da própria sociedade, que muda hábitos e sua cultura constantemente. E, como diz o grande pensador de moda brasileiro, João Braga, a moda não é cíclica porque não volta ao mesmo ponto no tempo, mas sim faz releituras do que já foi "tendência" no passado acrescentando as atualizações e adaptações à realidade. O sucesso dessas releituras (que também acontecem na música, no cinema, etc) ocorre primeiro pela mídia e depois porque em geral pessoas gostam de vivenciar épocas que não viveram, e isso pode acontecer pela moda.

- Atualmente, podemos dizer que os estilistas baseiam suas criações e são influenciados por modismos já existentes lançados por celebridades ou mesmo por cidadãos comuns?

Dix - Com certeza! As inspirações sempre vêm da realidade. Claro que no caso dos estilistas, cada um convive numa realidade diferente e a interpreta de forma diferente. Então, o Fauze pode criar uma coleção inspirado pelos orixás africanos, o Ronaldo Fraga pelo aniversário da Nara Leão e o Summer inspirado pelo Affro Reggae e todos desfilarem na mesma SPFW. A Bob Store, pela mulher de Ibiza e a Osklen pelas estações de esqui de Utah. E, mesmo quando o tema é único, como a SPFW tem feito ultimamente, você pode reparar que cada um interpreta de um jeito - não só porque cada um tem uma grade própria de produtos, mas basicamente porque as referências são diferentes, e essas referências podem ser históricas, de viagens, de experiências pessoais, ou de uma visão que lhes dá esse "insight".

- Qual o tempo de validade de estilos e tendências ditados em determinada estação? O que os faz, tempos depois, ficar "fora de moda"?

Dix - Esse tempo quem determina é a indústria. Se você quiser uma calça de um jeito e não encontra nas lojas, vai acabar comprando o que tem. Além disso, aqui vale também o poder da mídia em divulgar as novidades - se a indústria produz um modelo de calça e não tem divulgação, a massa não compra, e isso pode fazer com que este seja retirado mais cedo do mercado. Raramente acontecem fenômenos como a calça de cintura baixa, por exemplo: só no Brasil essa modelagem ainda tem fôlego - no mundo inteiro já acabou faz tempo. Pesquisas indicam duas razões principais para isso: a jovem brasileira encontrou nessa calça uma forma simples e barata de valorizar o corpo e várias jovens possuem alguma tatuagem no final das costas, e uma calça de cintura alta tampa o desenho.

- Aliás, o que indica a expressão "estar fora de moda"?

Dix - Moda é muito mais do que o vestir. Está em todos os nossos hábitos e comportamentos. Nos anos 50 era moda fumar. Nos anos 60 a moda era ter gírias jovens e ouvir Beatles. Hoje a moda é ter um celular de última geração, ir trabalhar de bicicleta... Então, estar fora da moda é estar fora dos hábitos de uma sociedade, num determinado momento da história.Estar na moda é estar atualizado com seu tempo - nem fazer as coisas muito antes nem fazer depois. Agora, a moda (vestuário) tem papel fundamental na definição de quem está na moda ou não, porque ajuda a identificar, pela aparência, quem pensa o quê. E, não podemos nos enganar, porque a sociedade se utiliza muito da moda como ferramenta de segregação - você define quem anda com você, começando pela roupa. Por trás da roupa existe uma série de valores individuais e/ou coletivos que fazem com que você escolha uma roupa ou outra.


- Estar na moda é sinônimo de ser "chic"?

Dix - De jeito nenhum! Estar na moda é estar igual aos outros (mesmo que seja só do seu grupo de referência). Se pensarmos em "chic" como algo sofisticado, elegante, a regra é "menos é mais". Se você olha pessoas como a Gloria Kalil, Cosntanza Pascolato, Viviane Senna, Nicole Kidman, você verá que todas elas são sempre discretas, combinam muito bem as cores com seus tons de pele-cabelo-olhos, usam o mais adequado a cada ocasião, valorizando o desenho dos seus corpos. Para mim, ser chique é você despretensiosamente se destacar positivamente entre todos. Você pode estar de calça jeans e camiseta branca e estar chique: se o ambiente assim permitir e se a sua calça for adequada ao seu corpo, se a camiseta não estiver amarrotada, e assim por diante. Se o ambiente for para um vestido longo, a mesma combinação camiseta-jeans jamais vai ser chic.

Por Adriana Cocco

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