Tendências pra seguir (ou confundir)?

Tendências pra seguir ou confundir

Desfile Animale. Foto: agência Fotosite

Parece óbvio dizer que onde existe consumo, existe relação de pessoas. Mas nem todo mundo vai a fundo nessa máxima para entender o que se passa na cabeça de cada um (ou de um grupo) quando se escolhe ou compra algum produto (e até ideia). Quando o assunto é moda, por exemplo, enquanto uns compram estilo e seguem o lifestyle de determinadas marcas, outros querem ir na contramão, inventando um novo ciclo de consumo fashion.

A verdade é que não há mais espaço para conceitos fechados: a relação entre as pessoas que consomem e seus ‘vendedores’ é fluída, líquida, quase evasiva. Para entender essa lógica, a TrendRoom resolveu investigar a qualidade dessa relação conturbada e pesquisar valores que impulsionam novos comportamentos. A jornalista Luciana Stein, que criou a empresa trabalhou com tendências de consumo estudando o segmento de luxo e cursou MBA em Luxury Management. Mais tarde, descobriu outros cenários criativos evoluindo fora da categoria de "prestígio" e começou a desenhar mapas inspiracionais de tendências. Escreve para o Valor Econômico, presta consultoria para empresas como Canvas 8 e Iconoculture e é professora do Istituto Europeu di Design, em São Paulo.

Com a clareza de quem vê as coisas sob a ótica de muito estudo e pesquisa, ela conversou com o Vila Fashion e explicou de onde vem as tendências e qual sua relação com aquilo que a gente, de fato compra. Segundo ela, a ideia de tendência se tornou popular de mãos dadas com a moda, a partir da década de 1950. "Naquela época, a tendência costumava ser algo arbitrário, um ‘acordo’, entre os setores da cadeia para diminuir a resistência às peças produzidas", conta.

Hoje, ela refere-se à tendência sempre no plural - há muita, para todos os gostos, inclusive. "As tendências produzidas pela cadeia de moda hoje derivam também dos consumidores. Eles também são os grandes autores da moda hoje pela maneira livre com que usam as peças produzidas pela indústria".

Para Lu, as tendências de comportamento são valores e forças que atravessam uma época e atravessam também a moda. "Pense em ‘sexos em fluxo, gêneros menos definidos’ e as calças femininas perdendo os contornos, por exemplo". No entanto, a moda é apenas um dos campos no qual as tendências de comportamento se manifestam. E quanto à moda lançar novas tendências, ela é categórica. "Não vejo muitas novidades, só alguns factóides meio bobos". Mais dessas opiniões cheias de atitude, confira na entrevista abaixo.

Qual a responsabilidade da moda com relação ao momento social/cultural de um grupo? Ela é (ou deve ser) responsável?

Curioso você perguntar isso. No livro "Fashion Forecasting", editado em 1987, a autora escreve que os pesquisadores de tendência e a moda não devem tentar educar o consumidor a respeito de nada. Para ela, o lance da moda é satisfazer uma necessidade, vender. Tenho certeza de que 90% do mercado ainda pensa assim. Mas há uma pequena - e muito influente - parcela de pessoas e empresas globais na moda e em outros segmentos que estão mudando isso. Essas pessoas e empresas estão transformando o que antes se chamava de ‘utopia’, em objetivo prático. Eles se mostram mais responsáveis sobre os efeitos do seu processo de produção na sociedade. Desenvolvem projetos educacionais, inclusivos. Se importam e estão ganhando muita mídia. Espero que consigam convencer mais gente a subir nesse trem.

Você acredita que a moda ainda dite novas tendências?

Sim, acredito que a moda dita tendências ainda - enquanto você, eu e os consumidores não comprarmos uma máquina de costurar e fazermos as nossas próprias roupas, dependeremos dos lançamentos da indústria, e a indústria se organiza em ciclos. A parte boa disso é que a identidade das marcas é mais diversificada - há alguns anos trás, todos queriam ser apenas jovens e sexy - hoje há mais opções.

E de onde essas tendências vêm? Quem cria? O consumo dita?

Vêm de movimentos sociais, das mudanças nos valores sociais, na maneira com que as pessoas concebem suas vidas, mudanças na maneira com que as pessoas desfrutam de seu tempo livre e trabalham. De movimentos na política, por exemplo, com Obama e a emergência de um tom de linguagem menos hierárquico e mais ‘entre iguais’. Da economia também. Veja a influência que o Bolsa Família teve no aumento do consumo da classe D. Do meio ambiente, do comportamento que diz ‘Chega, prefiro pagar a conta da minha sustentabilidade agora e não depois!’, além das inovações tecnológicas, celebridades e mídia. Os consumidores também ditam deixando o jogo mais democrático. E não se esqueça dos pesquisadores de tendências, que são também criadores de tendências. Quando alguém diz que algo é tendência, está conferindo uma camada de legitimidade, colocando um tijolinho a mais na tendência.

Do ponto de vista do consumidor, é útil dar atenção às tendências?

A questão é que, muitas vezes, as pessoas consomem tendência e não sabem. Acho melhor ter consciência e escolher. Saber e não seguir, por exemplo. Acho útil dar uma atenção crítica às tendências. Muitas vezes elas revelam um desejo ou necessidade que não conseguimos articular com clareza.

Pode explicar um pouco do conceito de "Realidade Fluída"?

Realidade Fluída é um nome que criamos para uma ideia que não é nossa. Pertence a Zygmunt Bauman. Nós apenas aplicamos a ideia ao consumo. Bauman descreve o nosso tempo como escorregadio, aonde as relações não se prendem por laços fortes, aonde os limites não são claros. Não há grandes proibições, tudo pode. Ele diz que as metáforas líquidas são as que melhor traduzem nossa época. Nós mostramos como o pensamento de Bauman estava também na estética da nossa época, na arquitetura de aspecto fluído, no design de produtos que parece gotejar, em gêneros que são fluídos, categorias de varejo fluídas, pois se misturam - hotel quer ser casa, aeroporto quer ser museu, cabeleireiro quer ser balada.


E quais os benefícios e malefícios das tendências (criadas ou não)?

Há tendências de comportamento e tendências de consumo. Mas as pessoas só olham o consumo, e não o comportamento. Não relacionam uma coisa à outra. A palavra está nos comerciais de televisão, nas revistas e na boca das pessoas, sendo dita com sarcasmo e usada com um jogo de poder. Benefícios? As tendências de comportamento expressam pessoas, tendências de comportamento são feitas de gente.

Por Sabrina Passos (MBPress)

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