Provação no Provador

As liquidações de verão começaram. Acontece a cada estação. Primeiro, você recebe a ligação da simpática vendedora que avisa que a liquidação começa amanhã. Educada, você agradece e desliga o telefone como se nada tivesse acontecido. Tenta esquecer o assunto. Tenta concentrar-se na leitura do jornal e pensar em coisas mais importantes. Tenta, tenta. Mas o fato é que não consegue. E, já que é pra ir, melhor que seja logo, antes que acabe tudo.

A tortura começa já no primeiro passar de olhos pelas araras. Você torce para gostar de poucas coisas. Sente alívio quando vê um short lindo, de uma cor que detesta e que, portanto, pode ser descartado. Mas a vendedora, lendo seus pensamentos, avisa: “este veio também em lavanda, camomila, berinjela e gengibre”. Sim, porque ninguém mais produz roupa lilás, verde ou amarela, a coisa toda tem que ser mais sensorial…

Em alguns minutos, você estará no espaçoso provador, munida das 25 peças selecionadas, mais aquelas que ela foi buscar no estoque. Experiente, você sabe que, neste estágio, o foco deve ser eliminar opções. Põe, tira, veste, desveste, outra cor, outro modelo, mais curto, mais comprido... A esta altura, você já organizou as pilhas de roupas provadas. Tem a pilha “não, com certeza não”, a menor de todas. Tem a pilha “não, mas pode ser, será?”. Tem a pilha do “sim, mas sobrevivo sem”. Tem a pilha “importante como o ar que eu respiro”.

O processo sempre compreende uma etapa crítica e dolorosa, que é quando, já de posse de uma primeira seleção de “escolhidas”, você decide fazer uma soma mental dos valores, para saber de quantas peças terá que se livrar. Porém, como ninguém sabe fazer conta com 40% de desconto, você faz a soma com 50% mesmo, para ficar mais fácil. No íntimo, você se pergunta: “quem estou querendo enganar?”. Claro que sabe a resposta, mas engana-se assim mesmo, porque enganar-se faz parte do processo.

Algumas horas mais tarde, a "provação" terá acabado e você sairá feliz da vida com suas sacolas, embora meio tensa por ter estourado a banca já na primeira loja. Mas, alguma reação química muito louca ocorre no cérebro feminino neste instante e, como se tivesse tomado um comprimido ultra-potente, o prazer irá se sobrepor à preocupação. E é justamente este comprimido invisível e mágico que garantirá sua presença nesta e em outras liquidações.

Agora, é impressão minha ou as liquidações estão começando cada vez mais cedo? Generosidade das confecções? Ou estaria ocorrendo na moda o mesmo que já acontece na enganação da meia-entrada dos programas culturais? Preços ultra-inflados para que, após o desconto, o valor seja equivalente ao que deveria ser o preço cheio? Não importa, no surto das liquidações, as mulheres não raciocinam direito mesmo...

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Uma a Uma é uma empresa de inteligência de mercado especializada no público feminino. As sócias e colunistas do Vila Mulher, Denise Gallo e Renata Petrovic, ajudam a entender melhor e desvendar as várias faces da mulher contemporânea. Contato: umaauma@umaauma.com.br

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