O que extrair dos desfiles de moda

A temporada de moda nacional começou e vários amigos e conhecidos sempre comentam que não gostam de desfiles, porque acham tudo muito mirabolante e perguntam: "Onde já se viu? Quem vai sair com alguma coisa louca dessas na rua?".

Sim, alguns desfiles são mais comerciais e até é possível usar um look inteiro, mas o intuito não é esse. Desfiles, em geral, são conceituais. O que isso significa? Um desfile não serve pra vender uma roupa, mas sim um conceito, uma idéia.

Quando você olha aquela modelo vestida cheia de babados, rendas e volumes exagerados, não quer dizer que você deva sair por aí com a sua fantasia de baiana que sobrou do carnaval. Mas que a moda fica mais romântica e as peças mais volumosas. Ao assistir um desfile, devemos abstrair e olhar para cada detalhe separadamente. Os pontos principais são: silhueta, recortes e detalhes específicos, cores, estampas e materiais.

Primeiro dissecamos cada look, depois verificamos como esses elementos se repetem no resto da coleção e da temporada. A análise é facilitada quando respondemos as seguintes perguntas:

- Silhueta: Como era essa silhueta? Mais justa ou mais solta? O volume do look se concentra nos ombros, no quadril ou é bem balanceado? A cintura é marcada? É marcada no lugar, é império ou é rebaixada? Foi detectado algum shape específico, como o oval?

- Recortes e detalhes específicos: quais as modelagens que mais se destacaram? Um ombro só, frente única, tomara que caia? Os tecidos eram trabalhados em drapeados ou em origamis? Possuiam bordados ou recortes em lugares estratégicos? Que lugares?

- Cores: Como foi trabalhada a cartela de cores? Sóbrias e neutras? Vivas e intensas? Misturadas? Quais as cores que apareceram mais? Como essas cores foram combinadas?

- Estampas: Quais as padronagens que apareceram? Florais? Grafismos? Geometrias? Quais os tamanhos? Eram estampas localizadas ou corridas? De que tipo? Silk? Tromp-loeil? Desenhos criados com materiais inusitados, como paetês, tachas e botões?

- Materiais: Quais os tecidos que mais apareceram? Eles eram estruturados ou leves e esvoaçantes? Algum material específico, como tachas, plumas e rendas, se repetiu? Como esses materiais eram trabalhados? E combinados?

Os looks dos desfiles servem como lupas, os detalhes aparecem exagerados para que as propostas e vontades do criador sejam identificadas com mais facilidade.

Além disso, servem como ponto de inspiração. Às vezes não passava pela nossa cabeça combinar determinados materiais, ou usar duas cores em um mesmo look, mas o jeito como foi mostrado ajudou a quebrar paradigmas e inspirar nossas escolhas na hora de nos arrumarmos.

Também podemos detectar, através dessas análises, os rumos da humanidade. Como eu já disse por aqui, toda roupa transmite uma mensagem e possui um propósito e nada melhor do que entendê-los para conhecer o comportamento de um grupo ou período específico.

Por exemplo, na década de 20 a mulher começou a assumir um papel mais importante na sociedade e precisava de roupas mais práticas, portanto se libertou do espartilho e começou a usar peças mais soltas, que facilitassem o movimento. Na segunda guerra as mulheres usavam muitas saias lápis e roupas mais ajustadas e mais curtas que nas décadas anteriores porque a quantidade de tecido que poderiam usar em cada peça de roupa era pré-determinada. Já no final da década de 40, com o fim da guerra, Christian Dior viu que a sociedade estava cansada dessa sobriedade e precisava de novos ares, mais femininos.

O look destruído dos punks também foi uma resposta aos confeccionistas que eram responsáveis pelo mercado de trabalho inglês na década de sessenta. As ombreiras exageradas e as peças estruturadas dos anos 80 eram usadas para que a imagem fragil e delicada das mulheres fosse camuflada e igualada à imagem mais rígida e forte dos homens. Nos anos 90, entre outras coisas, veio a febre da logomania e da ostentação, trazida pelos novos ricos que associavam marca ao status. Nos anos 2000, principalmente com a crise, esse luxo ficou muito mais discreto e a ostentação passou a ser cafona, as cores apareceram mais sóbrias e as formas mais contidas.

Se repararmos nas últimas temporadas, conseguimos ver algumas propostas que refletem o comportamento da mulher atual, sendo ela independente e sem vontade de formar uma família, ou a mãe multitarefas que cuida da casa, dos filhos e do marido, além da carreira bem sucedida.

Tudo é mais fácil de vestir e usar, as roupas e bolsas possuem mais compartimentos visando a praticidade e organização, as peças podem ser usadas de maneiras diferentes porque precisam ser versáteis para atender desde a reunião do trabalho até a balada com as amigas e as modelagens são mais confortáveis para que a mulher ainda se sinta bem ao fim do dia. O contraste das formas masculinas com os elementos femininos também servem para demonstrar que a mulher hoje pode ocupar os mesmos cargos e sustentar uma família com a mesma competência que um homem, mas sem precisar deixar de lado sua feminilidade e (dependendo do ambiente) sensualidade características. Os materiais ressaltam seu interesse e preocupação com o meio-ambiente e com a preservação do mundo em que vivemos.

Seja para começar a usar as coisas agora antes que o resto use, ou para identificar um comportamento social, o reconhecimento dessas informações requer prática e uma ótima idéia é começar pelos desfiles da Casa de Criadores, que acontece até hoje.

Confira alguns exemplos de desfiles, o primeiro é Walério Araújo e o segundo das Gêmeas:

Érica Minchin trabalha com pesquisa, criação e desenvolvimento de produtos em moda e ministra cursos e palestras sobre imagem e tendências. Ela ensina que aparência é a ferramenta de comunicação não-verbal mais poderosa e estimula explorar as melhores maneiras de fazer uso dela. Contato: contato@ericaminchin.com

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