Moda inclusiva - roupas para portadores de deficiência

Moda inclusiva  roupas para portadores de deficiên

Foto: Renan Pissolatto.

O mundo da moda perde um pouco do charme quando a gente para e pensa que, de verdade mesmo, ela não é lá muito democrática. Se você é muito alta, falta um pedaço da barra ou a calça fica larga. Se é gordinha, provavelmente fica difícil encontrar aquela blusa que viu no catálogo de moda ou na revista. E, se você tiver algum tipo de deficiência física e necessidades especiais, como acha que a moda fica?

A professora da área de Moda do Senai de Cianorte, no Paraná, Leny Pereira, parou para pensar melhor sobre isso e resolveu desenvolver roupas especiais. Depois de conhecer um menino tetraplégico, de 12 anos, ela prometeu que criaria uma roupa exclusiva para ele - e assim, quase sem querer, deu inicio ao projeto "Roupas para PcD (pessoas com deficiência)", premiado no último concurso Mostra Inova do Senai, em junho desse ano.

Leny criou uma coleção toda adaptada para crianças e adolescentes com deficiência motora, a partir de um estudo chamado 4ª dimensão de modelagem, que observa o movimento do corpo e suas articulações. Isso significa que as peças têm detalhes que facilitam o vestir, como um recorte nas costas ou um deslocamento na costura. Os aviamentos - de plástico ao invés de ferro - deixaram as roupas mais confortáveis. Mas, mesmo com tanta novidade, não há grandes diferenças quando o assunto é produção. "Os acabamentos e costuras são os mesmos já utilizados na confecção industrial. O deslocamento não muda o processo normal", garante a professora.

Segundo ela, não existem roupas com modelagem especial para os deficientes jovens que atendam a necessidade e, ao mesmo tempo, estejam na moda, com cores alegres, estampas e cortes atuais. Hoje, a maioria das crianças deficientes utiliza roupas de tamanho maior, com algum tipo de adaptação caseira. "Geralmente a mãe tem que improvisar, fazendo aberturas laterais para vestir com mais facilidade", afirma.

O projeto foi todo elaborado para atender crianças e adolescente com paralisia em membros superiores e inferiores, além de pessoas em reabilitação pós-cirúrgica. "As peças atendem não só aos cadeirantes, mas todas as pessoas com dificuldade motora, que podem ter um comprometimento leve ou grave dos movimentos", explica.

A primeira coleção tem 12 peças, com vestido, calça, blusas e jaqueta. Por enquanto, as roupas são para crianças, mas podem ser redesenhadas para mulheres e homens. Agora, a intenção é colocar a coleção no mercado. "É uma coisa simples, mas que pode mudar a vida de uma pessoa, principalmente de uma criança" considera Leny. Em entrevista especial para o Vila Fashion, ela fala um pouco do sentimento de estar à frente de um projeto que democratiza a moda e conta de onde veio a grande inspiração para tudo. Ela acredita que até o fim do ano já será possível comprar as peças pela internet, e quanto aos preços, provavelmente terão o custo de uma peça convencional.

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Como você se sente à frente de um projeto que democratiza a moda?

Sentir, talvez seja a palavra deste projeto. Existe muito sobre moda, seu desdobramento enquanto comportamento, tendências, e até mesmo o reflexo de uma sociedade. São vários sentimentos que sustentam essa ideia. Hoje me sinto muito feliz e realizada com a contribuição do meu trabalho para tornar possível e mais agradável o dia dessas pessoas. A moda existe porque existem pessoas e a democratização da mesma é um direito de todos os indivíduos. A pessoa com deficiência é um consumidor. Assim como os demais, eles chegaram ao mercado de trabalho, conquistaram espaços, e porque não, o mercado de moda? É um grande desafio com certeza, mas apaixonante e de muita essência humana.

De onde veio à inspiração principal para criar as peças?

Essa ideia surgiu quando na graduação participei de um seminário com a professora Maria Fatima Grave, precursora no Brasil sobre este assunto. Na ocasião ela falou do desafio da modelagem para pessoas com lesão medular, e outras patologias. Depois da palestra, não parei mais de estudar e me interessar pelo assunto. Em 2007, estava pronta a fundamentação teórica e comecei a parte prática do projeto. Foi quando conheci as crianças que provaram a coleção. Aí não tive dúvida que esta ideia era mais necessária do que imaginava. A percepção e o amor pelo próximo foi o combustível para que este projeto criasse força de produto e ganhasse mercado. A maior inspiração vem de uma causa nobre e divina. Acredito que o mais interessante da moda é o respeito pelo corpo a ser vestido, e isso é inerente ao profissional de moda, em todos seus níveis.

Pode explicar um pouquinho dessas "quarta dimensão"?

Na quarta dimensão da modelagem se estuda o corpo em movimento. A modelagem tridimensional atende essa realidade e na quarta dimensão é possível prever o quanto se deve entender o molde, para que este acompanhe a mobilidade do corpo, não causando desconforto ao indivíduo que a utiliza. Nesse caso específico o estudo da modelagem é fundamental para entender a mobilidade desse corpo.


A moda tem uma face excludente, porque o que se mostra na mídia é glamour, que requer muito dinheiro para ostentação. Para esta face da moda, as medidas e os contornos procuram a ilusão de perfeição. No entanto, existem outras faces que a moda contempla, que é a ergonomia e o respeito do bem vestir a todos, sem distinção.

Por Sabrina Passos (MBPress)

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