Moda - A importância dos materiais

Ofuscado pelo modelo, caimento e cor da peça, o material da roupa sempre acaba em último plano na escala de fatores que importam para a decisão - quando deveria ser um dos primeiros a se avaliar.

Na hora da compra, ele é importante não só por toda a informação que carrega, mas também para que o valor da peça seja calculado adequadamente. A peça pode ser linda, mas se a qualidade do material não for boa, aquela blusa tão querida (e cara) vai ser descartada em meia dúzia de lavagens. Além disso, é conhecendo o material que saberemos se os cuidados que ele requer se adequam à nossa rotina e ao nosso bolso (no caso de peças que exijam lavagem a seco, por exemplo).

Infelizmente, nome famoso e preço alto na etiqueta não necessariamente certificam qualidade. E, mais infelizmente ainda, os vendedores ainda não recebem o treinamento adequado e continuam querendo vender acrílico como se fosse caxemira e poliéster como se fosse seda.

A solução para não tomar uma decisão equivocada? Ficar de olho na etiqueta. Por lei, é obrigatório que seja informada a composição do tecido (ou tecidos, se houver mais de um em uma mesma peça) e o modo de conservação da peça - relembre os símbolos aqui.

Além de saber se os cuidados necessários têm a praticidade que você precisa, leve em conta qual será a finalidade da peça.

A malha é um material bem flexível e pode deformar com facilidade. Por isso dependendo da peça, é bom verificar se ela foi reforçada e estruturada como deveria. Pegue as bolsas de moleton como exemplo: viraram febre, são um jeito divertido de deixar o visual mais informal e sair do lugar - comum das bolsas de tecido. Porém, se uma peça desse material já pode ficar com a marca do joelho e do cotovelo conforme seu uso, imagine com o peso das coisas que você carrega em sua bolsa. Só uma boa estrutura para evitar isso - e mesmo assim eu só carregaria o que é pequeno, leve e essencial em uma bolsa dessas.

Outro fator é a utilidade.Trabalha em um ambiente quente e ensolarado o dia inteiro? Dificilmente peças de materiais sintéticos, como o poliéster, serão uma boa opção já que abafam o corpo e não absorvem a transpiração. Nesse caso as fibras naturais são muito bem-vindas. Porém, se você passa muito tempo sentado ou realizando atividades que amassem muito a peça, ou seu tempo não permita que você passe toda vez antes de usar, o ideal é investir em um tecido de composição mista - a fibra natural fará com que a pele "respire" e a sintética tornará a peça mais rápida de secar e passar.

O quarto item a ser observado é o volume. Não devemos esquecer que os materiais podem influenciar até naqueles truques de ilusão de ótica. Quando muito texturizados e volumosos, como os maxitricôs, podem acrescentar volume, portanto são mais adequados para regiões estreitas do corpo.

As texturas do tecido ou malha também amenizam a textura do cabelo mais crespo, das marcas de expressão e até cicatrizes de acne quando colocadas perto do rosto. Quando um dos dois (material ou pessoa) for bem liso, o contraste terá o efeito contrário, de destaque. Quando o tecido ou malha for mais maleável, pode ajudar a amenizar as curvas extras. Porém, se muito estruturado ampliará a região, deixando-a disforme, e se muito fluido poderá marcar cada dobrinha indesejada.

Por último, mas não menos importante, os materiais também carregam significados que podem servir tanto para reforçar a mensagem de uma peça, quanto para quebrar a comunicação excessiva.


Leveza e fluidez sempre serão muito mais acessíveis do que rigidez e estrutura. Quanto mais textura, menos austeridade. Generalizando um pouco apenas para explicar melhor, fica o exemplo da adversidade entre tecido e malha. O tecido é construído em ângulos de 90 graus, enquanto a malha é laçada como um tricô - o que justifica sua elasticidade mesmo quando não houver elastano na composição. Justamente por isso, a malha acaba sendo mais informal que o tecido - por sua maleabilidade, e pela textura (quase imperceptível, em alguns casos) criada pelas linhas curvas da sua construção (que também aumentam a acessibilidade conforme forem mais aparentes - caso dos maxitricôs novamente). Enquanto mesmo o tecido mais leve e transparente é mais reto e menos flexível transmitindo as mesmas mensagens de seriedade.

Érica Minchin trabalha com pesquisa, criação e desenvolvimento de produtos em moda e ministra cursos e palestras sobre imagem e tendências. Ela ensina que aparência é a ferramenta de comunicação não-verbal mais poderosa e estimula explorar as melhores maneiras de fazer uso dela. Contato: contato@ericaminchin.com

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