Fazer moda está na moda!

Fazer moda está na moda. Na faculdade, nos cursos que frequentei e em todos os lugares sempre escutei como justificativa "eu sempre gostei de comprar roupas, então resolvi fazer moda". Ou então "eu adoro desenhar, então resolvi fazer moda". Nada de errado com essas justificativas, porém em todos esses lugares uma grande parte da turma desistia logo que percebia que "fazer moda" não é só ficar sentado desenhando roupas. Quem trabalha com moda tem que ralar. Muito e o tempo todo.

E começa no estudo, que é eterno: além dos vários livros sobre história da indumentária, comportamento humano, imagem, comunicação não-verbal, fabricação e muitos outros assuntos que são leitura obrigatória, independente da área que se pretende seguir, é preciso estar atento às novas e às velhas mídias como os blogs, sites, twitters e revistas que mal você começou a leitura de um dia/semana/mês e já aparecem outras com mais informações para atualizá-lo. Quando acaba uma semana de moda em Nova York, por exemplo, começa outra em outro lugar e se a temporada de verão internacional já foi e a de inverno só chega em um mês no Brasil, existe o pre-fall para ocupá-lo nesse meio tempo.

Algumas dessas leituras, principalmente dos livros, não são exatamente gostosas. A maioria dos livros sobre história da indumentária e comportamento humano é escrita por sociólogos e, se você não é uma pessoa que ADORA ler e AMA o assunto, acaba cansando facilmente. Outros livros não são muito bem traduzidos - isso quando já existe tradução para o nosso idioma.

Ainda no quesito leitura + informação, o profissional dessa área deve estar atento a outros assuntos, como fotografia, história da arte, economia, administração e meio ambiente. Cultura é fundamental: conhecer filmes, músicas, exposições de todas as épocas. E não só os blockbusters ou as músicas que tocam na rádio.

Moda é evolução, é o retrato de uma época através da aparência. Precisamos saber de onde viemos e como chegamos para que possamos seguir adiante.

Independente da área, é preciso conhecer tecidos e modelagens (se você for estilista, o conhecimento prático é fundamental) e a tecnologia muda o tempo todo, em função das necessidades humanas e ambientais - o aquecimento global, por exemplo traz a necessidade de se descobrir formas de fabricação de roupas que sejam confortáveis e facilmente adaptáveis às mudanças climáticas e ao mesmo tempo preservem o meio ambiente, sem esquecer os custos que devem ser viáveis.

Cursos também são fundamentais, mas fique atento: eles não vão te dar todo o conhecimento que você precisa, servem apenas para mostrar o caminho, cabe a você percorrê-lo.

O conhecimento nunca vai ser suficiente, por isso o aprendizado é constante. E mesmo depois de tudo isso, entrar no mercado não é fácil. O jogo de cintura é fundamental. Quem trabalha com moda trabalha, acima de tudo, com pessoas (e com egos). Em algumas regiões o mercado está saturado, em outras o pensamento ainda é muito antiquado e não entende, aceita ou valoriza a necessidade determinados profissionais. E ainda existe o eterno problema do QI, ou Quem Indica.

O trabalho dura 24h por dia. Mesmo que sua carga horária seja das 8 as 18h (tirando as horas extras), ao sair da empresa a pesquisa continua, o olhar sempre atento capta referências em todos os lugares, a todos os momentos. Para alguns, isso é desanimador, exaustivo. Para outros, assim como eu, constatar isso só faz crescer a paixão. É para os que têm como filosofia de vida a velha máxima: o que é mais difícil é mais gostoso.


Como recompensa, a moda tem o poder de transportá-lo sem que você saia do lugar. É emocionante conhecer histórias e lugares, compreender épocas e pessoas através de um conjunto de detalhes encontrados em uma determinada peça, participar da evolução e entender porque tal coisa está sendo proposta daquela maneira específica, criar, planejar e compor, não apenas um look, mas o quadro todo.

Érica Minchin trabalha com pesquisa, criação e desenvolvimento de produtos em moda e ministra cursos e palestras sobre imagem e tendências. Ela ensina que aparência é a ferramenta de comunicação não-verbal mais poderosa e estimula explorar as melhores maneiras de fazer uso dela. Contato: contato@ericaminchin.com

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