Enredo sobre História da Moda?

Eu não sou a maior foliona, não pulo carnaval e pouco entendo sobre os quesitos que fazem de uma escola campeã - ou a deixem em décimo lugar. Também não sei se a coerência conta para alguma coisa na análise, ou apenas o desfile em si. Mas com moda eu trabalho.

Quando ouvi os comentários de que a Porto da Pedra apresentaria um enredo voltado para a história da moda, com direito a Marilia Pêra vestida de Chanel e profissionais ilustres como Paulo Borges (que não abriu o desfile conforme noticiado) e Iesa Rodrigues na avenida, me empolguei. Tanto que proibi meu namorado de encostar no controle para "zapear" enquanto o desfile estivesse passando.

Tamanha foi a minha decepção ao ver que o intuito da meia dúzia de livros de história da moda que repousavam na estante do escritório do carnavalesco (mostrado em entrevista prévia ao desfile) era apenas decorativo.

Acompanhei o desfile junto aos comentários no twitter e percebi que não estava sozinha.

Apesar de entender a idéia das bonecas da comissão de frente representarem o primeiro contato da criança com as roupas, concordo com a opinião geral de que acabou fugindo um pouco do tema do desfile e poderia ser feita de uma melhor maneira. Vendo pelo lado positivo, pelo menos isso não fez com que ninguém se revirasse no caixão.

Não posso dizer o mesmo de Geyse Arruda. Com uma versão de paetês do vestido que a tornou famosa, só tinha uma lembrança da rainha Elizabeth no penteado. A comentarista até tentou justificar, falando que neste período as roupas ficaram mais curtas... Não, não ficaram.

Confesso que tive um certo preconceito no momento em que soube que a estudante desfilaria, mas ao analisar melhor, percebi que a estudante poderia ser usada como exemplo, ou mesmo uma crítica, do que a roupa pode significar perante a sociedade, de forma coerente, fundamentando sua presença. Infelizmente, não foi o que ocorreu.

A ausência de algumas décadas também poderia ser compreensível visto que era um tema muito extenso para ser apresentado em apenas 82 minutos, mas a transição feita de forma tão abrupta e incoerente só fez com que o desfile ficasse mais confuso.

O fato de que Marilia Pêra, para alguém que já encarnou Chanel no teatro tão divinamente, pudesse ter usado outros tantos figurinos para fazer igual na avenida também não ajudou. Mesmo com o carro alegórico borrifando Chanel No. 5.

Sobre a forma como a moda nacional foi demonstrada eu prefiro nem comentar. Nomes que fizeram com que surgisse esse conceito no país, como Zuzu Angel, Denner e Clodovil, passaram praticamente batidos, enquanto a festa da Lenny foi super destacada como evento de suma importância no calendário nacional.

Resumindo, o enredo seria tão rico quanto o tema se este fosse um pouco mais fechado (só até a Belle Epoque, ou só o último século, ou só a moda nacional, por exemplo). Ou se fosse explorado das outras varias formas que citei, poderia resultar na aula de moda que a escola prometeu.


Se no futuro do pretérito o desfile poderia ter garantido o primeiro lugar, ou pelo menos uma posição melhor, eu não posso dizer. Mas certamente garantiria uma torcida muito maior.

Érica Minchin trabalha com pesquisa, criação e desenvolvimento de produtos em moda e ministra cursos e palestras sobre imagem e tendências. Ela ensina que aparência é a ferramenta de comunicação não-verbal mais poderosa e estimula explorar as melhores maneiras de fazer uso dela. Contato: ericaminchin@yahoo.com.br

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