Dieta das roupas

É fato que a rapidez da moda tem estimulado cada vez mais o consumo excessivo. Se até o final do século passado as tendências podiam ser divididas por décadas, ou pelo menos por períodos de no mínimo cinco anos, hoje não é mais bem por aí. O que foi 'lançado' em 2007 já está ultrapassado.

Um bom exemplo é o lenço palestino que, como moda, há dois anos foi usado até a exaustão. Três anos, se você for olhar desde o desfile da Balenciaga em que Nicholas Ghesquière, inspirado na modinha que os mais antenados usavam como símbolo de protesto pela paz, transformou o tal lenço em tendência.

Outro caso recente são os ombros "da Balmain" que, em menos de um ano, mal atingiram seu auge e já estão perdendo força. Os ombros continuam marcados, mas agora de jeitos completamente diferentes.

Sem falar na viscolycra que há uns 3, 4 anos era a novidade. Todo mundo queria tudo nesse material. Atualmente, apesar de ainda muito usado pelo grande público, é considerada cafona por quem é mais ligado em moda.

O que aconteceu com ter poucos - e bons - clássicos no guarda-roupa? No tempo da minha avó, quem tivesse sete vestidos tinha muito! Só de malha, hoje tenho dezoito. Eu preciso de tudo isso?

A moda é um dos mercados que mais emprega e movimenta dinheiro no mundo - eu mesma sou uma das pessoas que precisa que ela continue crescendo para trabalhar. Mas não seria hora de repensar os conceitos?

Não só porque o ser humano está comprando muito mais do que precisa, mas porque, além disso, todos esses produtos vão virar lixo um dia.

Eu li uma matéria no New York Times sobre um movimento que começou nos Estados Unidos e está ganhando adeptos ao redor do mundo: pessoas estão adotando "dietas de compras".

A matéria cita dois exemplos. O primeiro é o "Six Items or Less" em que a pessoa escolhe seis itens de sua preferência para usar durante um mês - não incluindo acessórios e roupas íntimas. O experimento tem um portal http://sixitemsorless.com/ em que as pessoas compartilham seus sentimentos, suas reações e até suas recaídas.

O mais surpreendente é que a maioria dos depoimentos é sobre o quanto quase ninguém percebeu que essas pessoas usavam sempre as mesmas roupas. Incluindo o marido de uma das sixers (como são chamados os adeptos do programa), que, inclusive, era o responsável por lavar as roupas da casa!

A maioria não vê a hora do mês acabar, alguns ainda dizem que perderam a vontade de sair da cama. Por outro lado, existem resultados como o da usuária kelliblake, que estava sentida porque o seu mês já chegara ao final. Em um trecho de seu texto, ela diz: "Quando acordei hoje de manhã, pensei por muito tempo sobre o que vestiria. De frente às opções, estava muito mais claro para mim o quão pouco eu quero e preciso basicamente de tudo que possuo".

O outro experimento citado na matéria chama-se "The Great American Apparel Diet" (algo como "a grande dieta americana das roupas"), em que os adeptos deixam de comprar itens novos por um ano - exceto por roupas íntimas.

O ser humano precisa se conscientizar cada vez mais dos seus atos e este é justamente um dos principais deles. Eu mesma já havia proposto algo similar por aqui no Vila Fashion.


Pode parecer radical, a princípio, e metade das pessoas que se propõem a participar dos programas desiste logo, mas o senso comum é que todos os que chegaram ao final concordam que o ser humano consome muito mais do que necessita realmente e acabam reduzindo seus hábitos.

E você? Tentaria?

Érica Minchin trabalha com pesquisa, criação e desenvolvimento de produtos em moda e ministra cursos e palestras sobre imagem e tendências. Ela ensina que aparência é a ferramenta de comunicação não-verbal mais poderosa e estimula explorar as melhores maneiras de fazer uso dela. Contato: contato@ericaminchin.com

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