Daspu - grife se firma no mercado!

Gabriela Silva Leite fundadora da Ong Davida

Gabriela Silva Leite, fundadora da Ong Davida (Divulgação / Paulo Jabur)

Direto das ruas do Rio de Janeiro, elas decidiram criar um grife. Nada de espanto, não fosse o fato do grupo empreendedor ser formado por prostitutas. Ligadas à ONG carioca Davida, elas deram cor, forma, estampas e tecido à Daspu. A ideia era gerar visibilidade e recursos para os projetos da organização. O que conseguiram, no entanto, foi vencer o preconceito e inventar moda direto das ruas, inspirada num mundo que nem todo mundo admira.


A coleção completa da marca conta com as camisetas da linha ativismo, de quando a marca começou, além de “peças de batalha”, como “sutiliga”, “hot pants” e calcinhas e, claro, roupas para o dia-a-dia (ou a noite-a-noite), com vestidos, saias, macaquinhos, coletes e tops. Os homens não ficam de fora, com camisas, cuecas e camisetas. As peças são comercializadas no site da marca, que está sendo todo reformulado, e em mais duas lojas - uma no Rio de Janeiro e outra em São Paulo.

A ideia da grife passa longe da intenção de tirar alguém do mundo da prostituição. Até porque faz parte das lutas da ONG a conquista da cidadania das profissionais do sexo. “A prostituição não é proibida no Brasil. O que é proibido são as casas de prostituição. Por isso elas não têm como reivindicar direitos ou melhores condições de trabalho, segurança, higiene, horários definidos ou limite de volume da música, por exemplo”, explica Gabriela Silva Leite, fundadora da Davida.

Fora isso, Gabriela ainda atua, por meio da ONG, advogando para mudanças legais que formalizem as relações de trabalho na prostituição. E a luta não fica apenas no âmbito nacional. Tanto que ela acaba de voltar de uma conferência, em Washington, com nova equipe de governo americano, onde discutiu maneiras de se acabar com a cláusula que proíbe e prostituição nos EUA.

Daspu

Daspu (Divulgação / foto AF Rodrigues)

As roupas da Daspu são desenhadas por profissionais de moda, depois de pesquisa com as mulheres da vida. A coleção de verão 2009 contou com parceria de alunos, ex-alunos e professores do curso de Design de Moda e Design Gráfico da Universidade Fumec, de Belo Horizonte. Inspirados na batalha das prostitutas, inclusive contra a discriminação, eles criaram a coleção “As Cruzadas - Entre o Botão e a Espada”. E quer saber quem é público dessas roupas cheias de atitude? “Pessoas cheias de atitude, descoladas, modernas. As profissionais compram também, mas a marca é muito usada por quem se simpatiza com a causa e tem atitude de sobra”.

O que a ong faz como dinheiro arrecado pela vendas da Daspu vira investimento em projetos sociais e culturais da associação. A grife também remunera as prostitutas que desfilam. “Quando minhas amigas desfilam lindas e altivas, sem vergonha de ser puta, estão falando de si mesmas e sendo políticas, revolucionárias. A Daspu nasceu de um sonho e virou realidade. O caminho está aberto para a puta cidadã”, diz Gabriela, prostituta por 15 anos e pioneira do movimento da categoria no Brasil. Em 1979, ela juntou outras amigas de batalha para protestar contra um policial que agredia as prostitutas, em São Paulo. Desde o episódio, uma coisa foi levando a outra e, aos poucos, ela foi trocando a atividade pelo ativismo. Em 1990 ela largou definitivamente a prostituição. Hoje, aos 58 anos, vive com o companheiro Flávio, tem duas filhas, uma neta e um enteado.

Entre os projetos sociais da Davida estão prevenção de Aids entre prostitutas e clientes e produção do jornal e site “Beijo da rua”, em parceria com o Ministério da Saúde. Além disso, a entidade apoia eventos culturais como “Mulheres Seresteiras”, a peça teatral “Cabaré Davida” e o bloco de carnaval “Prazeres Davida”. Gabriela se orgulha dos projetos que mantém em parceria com o Ministério da Saúde, para educação das prostitutas. Mas o sonho dela era poder transitar melhor em outros ministérios também, como a da Cultura ou do Trabalho.

Por Sabrina Passos (MBPress)

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