Daspre, a grife que liberta

Daspre a grife que liberta

Divulgação

Ela está presa há quase quatro anos e ainda tem mais três para cumprir, por tráfico. Mãe de cinco filhos, encontrou dentro da cadeia a esperança de vida após o crime. Rejane Alves da Silva, de 31 anos, é uma das 60 reeducandas do sistema prisional paulista que participam do projeto “Daspre, a grife que liberta”. O projeto busca capacitar e profissionalizar essas mulheres para criação de artesanatos diferenciados.

“Eu aprendi a fazer muitas coisas, como fuxico, patchwork, bolsas e, agora, trabalhos manuais. Eu vou usar tudo o que aprendi quando sair da prisão, porque em casa eu já tenho uma máquina e eu posso continuar fazendo este serviço até conseguir um emprego bacana”, diz Rejane, que cumpre pena na Penitenciária Feminina do Butantã.

Para ela, a Daspre é importante porque, além de dar a chance de sair um pouco da cela, significa uma renda extra. “É bom o dinheiro que recebo para ajudar em casa. É importante também para que o juiz veja que estou trabalhando”. A remição da pena também conta muito, já que há cada três dias trabalhados, um dia da sentença é diminuído. E cada uma das participantes recebe ¾ do salário mínimo. O horário de trabalho é das 8h às 17h, com 1h de almoço.

Para Lúcia Casali, diretora executiva da Fundação Professor Doutor Manoel Pedro Pimentel - Funap - a importância do projeto está justamente na capacitação dessas mulheres que, muitas vezes, não são aceitas pela sociedade quando deixam o sistema prisional. O projeto teve início em 2008, com uma oficina experimental, com presas do regime semi-aberto e com a oficina de produção, com as do regime fechado. Em 2009, o projeto ganhou mais uma oficina de produção, também em regime fechado.

Cerca de 200 presas já passaram pelo projeto. Atualmente são 60 atuando, sendo 15 na Penitenciária Feminina de Santana, 15 na Penitenciária Feminina do Butantã e 30 na Penitenciária Feminina da Capital. “Os critérios para seleção dessas mulheres são habilidade manual e o comportamento dentro da unidade prisional. Todas as participantes são capacitadas durante as aulas os cursos oferecidos”, conta Lúcia.

Na Penitenciária Feminina de Santana, por exemplo, a artesã Maria Helena Albernaz ensina as técnicas da produção de caixas artesanais, três vezes por semana. Já nas oficinas de costura, o trabalho é diário e a Funap conta com a coordenação da mestre de ofício Isair Canuto da Silva, que tem a responsabilidade de ensinar as técnicas. Na Penitenciária Feminina da Capital, as mestres Dulcinéia de Oliveirão Julião e Margarida Yatabe Rodrigues monitoram a qualidade das peças produzidas. “Certamente, esta capacitação significa uma oportunidade de retorno à sociedade. Elas terão aprendido um caminho a seguir, uma profissão que propiciará geração de renda, já que mais que uma profissão, elas aprendem também questões de cidadania, hierarquias, respeito ao próximo, trabalho em equipe e colaboração, além do comprometimento com a produção”, avalia Lúcia.


A Daspre é financiada pela própria Funap e o valor arrecadado com as vendas é revertido para ampliação do projeto, compra de materiais e pagamento das presas. “A ideia é criar uma cooperativa onde as egressas possam continuar trabalhando para a Daspre. Estamos estudando este próximo passo”.

Duas oficinas estão implantadas em unidades penais e a oficina experimental na sede da Funap, na Vila Buarque, em São Paulo. Entre os produtos confeccionados estão caixas em papel paraná, forradas com tecido, que podem ser usadas como porta-jóias, porta-chás, porta-agenda, caixas de costura, cujos preços variam de R$ 20 a R$ 70.

Produtos Daspre

Produtos Daspre (Divulgação)

Na área da confecção, são feitas bolsas em tecido, chinelos com fuxico, carteiras, porta-celulares, trabalhos em patchwork, como jogos americanos, porta-talheres, porta-óculos, lixeiras para carros, necessaires, monstrinhos divertidos (almofadas), cachorrinhos travesseiros e colares. Todos estes produtos podem ser encontrados na Loja “Do Lado de Lá”, localizada na R. Dr. Vila Nova, em frente ao Sesc da Consolação, também na capital paulista.

O nome Daspre é clara referência à butique de luxo Daslu, que fica às próximo à Marginal Pinheiros, na Zona Sul da cidade de São Paulo. No Rio de Janeiro, há também a Daspu, marca de roupas que surgiu com foco nas garotas de programa e acabou ganhando status de descolada.

Por Sabrina Passos (MBPress)

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