Como funcionam as tendências

Por algumas temporadas aboliu-se o termo tendência porque a moda tornou-se muito democrática, mas essa temporada trouxe o tema de volta a pauta. Glória Kalil já fez sua lista, outros sites importantes também comentaram o assunto, mas a dúvida que ainda resta para quem não estuda ou trabalha com moda é: Como funciona a dinâmica das tendências de moda?

Em teoria, as duas formas básicas de desenvolvimento das tendências são 'bubble up' (ebulição) e 'trickle down' (gotejamento).

O trickle down acontece conforme as propostas que surgem nas passarelas vão chegando ao grande público, através dos formadores de opinião, revistas de moda e desçam até as lojas de departamento, disponibilizadas para qualquer um. Já o bubble up é quando as tendências surgem a partir das ruas. Peças populares são re-interpretadas por formadores de opinião e estilistas, até que essa nova forma passe pelo movimento de gotejamento e, através da influência da mídia e de outros meios, atinja as massas novamente, saturando-a e transformando-a em ultrapassada. Isso pode ocorrer tanto com peças usadas por um público considerável, como jeans que era usado pela classe operária e depois foi inserido na sociedade como símbolo de rebeldia até ter seu significado totalmente transformado, quanto por públicos menores ou nichos específicos, como ocorreu com o estilo punk e com os lenços palestinos.

Pode-se dizer que o trickle down foi predominante até o surgimento do prèt-a-porter que, conforme ganhou forças, fez com que as empresas não pudessem correr o risco de ter furos na produção, de não vender determinado estilo ou de esgotarem as peças sem que seus clientes tivessem sido atendido.

Por causa dessa necessidade de 'prever o futuro', surgiram os escritórios de estilo e os caçadores de tendências, que começaram a olhar para as ruas e estudar como se comportam e quais seus hábitos.

É praticamente impossível identificar quem criou, de fato, uma tendência. Podemos afirmar que ela não é criada por uma pessoa, mas sim pela carência de um grupo com o intuito de facilitar a movimentação (como as calças para facilitar o trabalho e cavalgar), de transmitir uma mensagem (como o uso de ombreiras, para passar uma imagem mais masculinizada e 'poderosa') ou qualquer outra, seja essa uma necessidade real ou uma vontade supérflua.

Já as cores e materiais são determinadas, com 2 ou 3 anos de antecedência, em reuniões de fabricantes, pesquisadores e criadores que definem as cartelas através de outros fatores identificados, como a capacidade de produção e o custo de um certo material ou pigmento.

Onde o estilista entra em tudo isso, então? Seu papel principal é interpretar aquilo de acordo com a sua visão e seus clientes, despertando desejo, ao invés de simplesmente copiar a proposta e contribuir para a uniformização da sociedade. Um belo exemplo foi a forma que Carolina Herrera utilizou para inserir tachas nas suas criações para a última semana de moda de Nova York - dificilmente você associaria esse nome ao material, mas Carolina conseguiu contextualizar essa 'febre' dentro do que seu público procura, sem alterar sua identidade.


Atualmente, os desfiles de Paris continuam servindo para reforçar e difundir esses conceitos. Mas isso está mudando aos poucos, já que em lugares como Tokio (que se transformou um dos destinos básicos para quem as caça) algumas propostas começam a aparecer até 2 anos antes de todos se acostumarem com elas e pensarem que são imprescindíveis porque aparecem nas passarelas francesas.

Érica Minchin trabalha com pesquisa, criação e desenvolvimento de produtos em moda e ministra cursos e palestras sobre imagem e tendências. Ela ensina que aparência é a ferramenta de comunicação não-verbal mais poderosa e estimula explorar as melhores maneiras de fazer uso dela. Contato: contato@ericaminchin.com

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