Começou! Palestra dá pontapé inicial à SPFW

Começou Palestra dá pontapé inicial à SPFW

Foto: Sabrina Passos.

Para uma plateia atenta e ligada no mundo da moda, o francês Didier Grumbach falou sobre os 200 anos da moda francesa - e ainda aproveitou para lançar a versão em português do seu livro, “História da Moda”. O evento abriu oficialmente a São Paulo Fashion Week.

O francês não foi escolhido à toa. Ele é muito mais que a simpatia no olhar e a leveza no falar, com francês gostoso de ouvir. Didier é Presidente da Federação Francesa da Costura ou Chambre Syndicale de la Haute Couture.

E ele começou a aula-magna que apresentou com uma frase forte, no auditório da Livraria Cultura: “a moda é uma indústria”. Mas é uma indústria que tem história, com mais de 200 anos. Didier contou um pouco da jornada da moda, desde Maria Antonieta até a crise atual. “Antigamente, a moda era privilégio da corte. Rose Bertin, costureira da realeza, não influenciava nas decisões da criação. Tudo era definido pela rainha mesmo”, conta.

A república mudou isso. Na mesma época, o primeiro costureiro homem apareceu e era inglês, Charles Worth. Ele montou em casa mesmo um pequeno ateliê e caiu nas graças de Napoleão III e de toda corte parisiense. Aí 1900 já tinha chegado e a alta-costura começava a aparecer. Nomes como Jacques Doucet, Paul Poret e Lady Duff Gordon, na época, faziam moda na França, mas ainda sem assinar suas peças - nada levava a marca dos artistas.

“Mas em 1910, aconteceu um erro que explica um pouco a posição da França no mundo da moda. Os costureiros se separaram e até hoje são hostis uns com os outros, criando um número diversificado de atores na alta-costura francesa”, explicou Didier.

Na década de 20 do século passado a cena mudou ainda mais, quando os nomes, quase fortes, passaram a ser usados também em perfumes e objetos de decoração. “Foi quando nasceu a diversificação na moda”, lembrou Didier. Nessa mesma época, com a Primeira Guerra Mundial, a mulher passou a trabalhar e a precisar de roupas para se vestir. “A moda deixou de ser apenas para a burguesia”. Mas crise de 1929 mudou o mundo e, claro, a cena na moda. Balanciaga quase fechou as portas. Dior sentiu os efeitos. A situação transformou a visão que se tinha do setor.

Durante a Segunda Guerra Mundial, os alemães entraram em Paris e o resto, quase todo mundo sabe. “Hitler achava que a moda francesa era vulgar. E obrigou as oficinas de alta-costura de Berlim irem para Paris. Exportando moda eles fariam também mais dinheiro”, contou. Nessa época, o conceito de alta-costura foi definido quantitativamente (era preciso ter, por exemplo, um número exato de operárias, manequins, e desfilar um exato número de meses por ano) e muitos costureiros acabaram excluídos do grupo, definido pela Federação.

Com o fim da guerra, novas marcas foram aparecendo. E as antigas se aproveitaram do olho comercial dos Estados Unidos. A Dior, por exemplo, aceitou a proposta de ter seu nome colocado primeiramente em meias americanas e depois em gravatas. A ação gerou enorme publicidade e transformou, mais uma vez a moda francesa. “Antes, era um setor forte. Agora era uma agência de concessão de marcas. Antes, não se assinavam as peças. Agora o escândalo era ter o nome em coisas que nem produzia”, disse Didier.

Aí o pret-à-porter ganhou fama, espaço, possibilidade comercial. Nesse novo movimento, as empresas eram responsáveis pela criação e também pela distribuição de suas peças, prontas para vestir. A Galeria Lafayette abriria suas portas para o “pret” e até condessas iam até lá comprar suas peças. A alta-costura não tinha como se sustentar e comprar a roupa pronta era inevitável. Nas décadas de 70 e 80, nomes como Cacharel, Kenzo, Issae Miyake, Thierry Muller ganharam destaque em Paris - mas o interessante é que nem todos eles são franceses.

“Isso porque a moda, desde então, não pode ser francesa, brasileira, chinesa. Não há nacionalidade na moda”, defende Didier. E isso explica outros nomes como Watanabe já no ano 2000 e Marc Jacobs, Prada ou Narciso Rodriguez, com força desde 2006.

Deu para perceber o retorno de algumas marcas já ditas como ‘mortas’? O que aconteceu para que elas ganhassem novo fôlego? “Muitas foram graças à diversidade. Elas ainda tinham energia. Apenas precisavam de impulso”. E esse impulso teve raiz na diversificação que a moda conquistou, em toda sua história.

“A alta-costura virou observatório, antes era conservatório”, disse. Isso significa que as marcas passaram a se sustentar a partir do pret-à-porter. “Ele deve ser prioritário. É preciso valorizar a alta-costura para preservá-la. Mas as empresas precisam viver do pret-à-porter e então agregar tudo na alta-costura”.

Para Didier, a crise atual vai mais uma vez mudar a maneira de fazer moda, assim como o uso da internet e a tecnologia. “Hoje eu posso desenhar em Paris e produzir amanhã, em São Paulo”, exemplificou. “Além disso, com o advento da internet, a moda coloca sua inovação à disposição do planeta. É a única indústria que faz isso”.

Com relação ao Brasil no cenário mundial da moda, Didier vê dificuldades pela posição geográfica do país. “As estações opostas dificultam um pouco o trânsito. Mas o Brasil é um dos países mais estáveis do mundo e por isso é possível trabalhar com o mundo todo, assinar bons contratos e estabelecer parcerias”, sugeriu. Segundo ele, tudo que for vinculado ao sol, ao Rio de Janeiro, aos esportes, ao jeans e até ao couro, pode vender o Brasil lá fora.

Mas para uma marca brasileira fazer parte da semana de moda francesa, isso basta? Não. “Marca não pode ser ‘brasileira’ para participar de uma semana de moda em Paris. O folclore deve ser deixado de lado, assim como o étnico. É preciso buscar novos modelos. Não temos tempo a perder”, finalizou.


O valor dos direitos autorais recebidos pelas vendas do livro de Didier aqui no Brasil vai financiar uma ou duas bolsas para estudantes de moda brasileiros em Paris. Para o autor, os alunos dessas escolas precisam de intercâmbio, passar um ano, pelo menos, em outro país, para então poder fazer a então moda global.

Por Sabrina Passos (MBPress)

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