A moda do Brasil lá fora

A moda do Brasil lá fora

Foto: arquivo MBPress.

As brasileiras fazem sucesso nas passarelas. Nossa comida deixa os gringos com água na boca e as praias, não preciso dizer: paraíso referência no mundo do turismo. Mas e no festivo universo da moda, como será que estamos?

A consultora de moda Bia Kawasaki viaja pelo mundo e, com olhar crítico, observa o movimento dos estilistas e dos produtos do Brasil longe de suas fronteiras. Segundo ela, o que faz mais sucesso fora são biquínis e maios, lingeries, calças jeans, sapatos e bijuterias, com pedras brasileiras.

E se engana quem acha que as coleções do hemisfério norte ditam completamente a moda aqui desse lado da linha do Equador. "Nossas roupas de grifes consolidadas já têm qualidade tanto de criação como de confecção muitas vezes superior às internacionais. Só copia moda estrangeira quem não domina o processo", afirma Bia.

Ela, que trabalha como personal stylist, tem dificuldade para destacar os estilistas daqui que fazem moda de qualidade lá fora. Mas não é pela falta deles, e sim pela boa quantidade e do sucesso que fazem. Em moda feminina ela destaca Glória Coelho, Reinaldo e Pedro Lourenço, Tufi Duek, Lorenzo Merlino, Cris Barros, Alexandre Herchcovitch, Patrícia Vieira, Jefferson Kulig e Isabela Capeto. Para os homens, o destaque é Ricardo Almeida. Nos acessórios, marcas assinadas por

Francesca Romana e Rose Benedetti encantam mundo afora. E na praia, não dá pra negar: salvas para Almir Slama [Rosa Chá], Lenny e Adriana Dégreas.

Nos pés, Bia lembra Luís Fernando Campanella [Ferri] e Jefferson e Vanessa [Studio TMLS]. Para a roupa de baixo, destaque para Cecília Bordon [Fruit de la Passion].E quando o assunto é festa, nomes como Samuel Cirnansck, Leonardo Chiasso, Fause Haten, Lino Vilaventura, Carlos Miele, André Lima e Marita de Dirceu (a rainha dos corselets) foram citados.

Mas essa moda, que faz sucesso fora e aqui no Brasil, não é acessível a todo mundo e tem sim um viés elitizado, certo? Errado. Bia defende que para vestir-se bem e estar "na moda" não é preciso ter a bolsa abarrotada de dinheiro. "Conheço pessoas que gastam fortunas nos grandes magazines e nas ‘Zé Paulinos’ e ‘25 de Marços’ [ruas populares de São Paulo], quando poderiam adquirir um número reduzido de peças de bons designers em suas pontas de estoque. Ou seja, para quê ter 10 calças jeans ‘perrengues’ no armário se, pelo mesmo preço, você compraria duas mais bacanas, com melhor corte e lavagem mais atual?"

O questionamento dela vai além. "Para quê alugar um vestido brega por festa e gastar os tufos se você pode, com a mesma quantia, comprar um vestido chiquérrimo de um estilista renomado e competente e estar linda em todas as festas?". A dica vale, pelo menos, para pensar no que se aplica o suado dinheiro. Segundo ela, as pessoas que não querem pagar caro pela etiqueta "têm um raciocínio, no mínimo, desinformado. É como querer comprar uma Ferrari a preço de lambreta". O que Bia quer dizer é que a modelagem exata e de caimento perfeito de uma boa roupa, precisam de anos de estudo, investimento e preparo, por parte não só do criador, mas também de toda equipe - e isso tem um preço.

"A verdade é que a maioria dos brasileiros prefere quantidade à qualidade e a mídia deita e rola com esta vocação de consumismo burro. Muitas vezes, estes consumidores nem pesquisam os preços na marcas mais conhecidas, por acreditar na mística do inacessível e também por vergonha de entrar em uma loja ‘elitizada’".

No meio disso tudo, é bem verdade que o Brasil exporta matéria-prima. Mas e criatividade? É muito bom saber que o país inspira o resto do mundo quando o assunto é moda. "Somos fonte de inspiração (e de admiração) em todos os cantos do mundo! É emocionante e empolgante!", diz Bia. Na opinião dela, o que falta é mais apoio do governo, com iniciativas e financiamentos que ajudem as mentes criativas a conquistar de verdade seu espaço. "Acredito que a desoneração dos custos possibilita crescimento".


Bia finaliza lembrando ainda que existe uma ilusão coletiva de que trabalhar com moda é sinônimo de status, glamour e dinheiro fácil. "Certo dia, conversando com o (Alexandre) Herchcovitch, ele contou que contratou uma estagiária, formada em moda e que, já na primeira semana, perguntou: "quando iremos à Paris pesquisar tendências? Ele respondeu: para Paris eu não sei querida, mas para a "25 de Março", pesquisar preços de aviamentos você vai agora!"

Por Sabrina Passos (MBPress)

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