Sociologia explica porque as mulheres são loucas por bolsas

Loucas por bolsas

Duas sócias da Feel Chic. Foto/Divulgação

Bolsas, bolsas, bolsas... O que essas danadas que, a princípio, eram meros acessórios, têm para nos fazer pirar desse jeito? A curiosidade foi tamanha que rendeu um estudo do sociólogo francês Jean-Claude Kaufmann, que no livro "Le sac. Un petit monde d’amour", cria teses sobre a relação bolsa X mulher. Sua pesquisa revela que o objeto de maior desejo das francesas é a bolsa, o que não acontece com as italianas, que são loucas por sapatos.

Para Kaufmann, a bolsa vai além da dimensão externa: dentro dela, a mulher guarda todo um universo particular e íntimo, com coisas que representam diversos âmbitos de sua vida, seja profissional, pessoal, estudantil, familiar etc.

Assim, a bolsa está ligada à constituição da identidade feminina, segundo Frederico Cesarino, mestrando em Sociologia pela Universidade Federal do Amazonas que, desde 2008, tem estudado todas as obras de Kaufmann. "Ela é uma companheira fiel, amiga íntima que tem resposta para tudo. Está sempre ao lado, pronta para as necessidades funcionais, afetivas e sociais", diz.

Cesarino compara a relação de amor entre mulheres e bolsas à relação entre mulheres e... homens? Calma. Ele explica que, assim como procuramos o melhor companheiro, também queremos encontrar características semelhantes em nossas bolsas, como companheirismo, beleza e funcionalidade.

Segundo o estudo sociológico, sua função pode ser separada em duas dimensões: externa e interna. No olho do furacão Kaufmann indica que a bolsa faz parte de um mundinho todo particular feminino. Ou seja, é aqui que o "bicho pega".

"Uma mulher que sai de casa às sete da manhã, vai ao trabalho, depois academia, happy hour, faculdade e retorna para casa tarde da noite, deverá levar consigo um verdadeiro kit de sobrevivência feminino: maquiagem, cremes, escovas de cabelo, escovas de dente, lenços, dinheiro, documentos, óculos escuros, chaves de casa, do carro, celular, agenda, medicamentos diversos (os que precisam e que não precisam), absorventes, entre outros infinitos itens derivados da cabeça de cada mulher", cita.

Talvez a quantidade (absurda) de itens que carregamos explica os calafrios causados por um homem mexendo em nossas coisas. "Imagine um homem, ao fuçar a bolsa de uma amiga, encontra uma caixa de preservativos e uma caixa de absorventes tamanho G. Somente neste exemplo aquele homem irá imaginar o tamanho da parte íntima desta amiga, além de deduzir que ela tem uma vida sexual ativa, talvez com encontros casuais, e se preocupa com proteção", exemplifica. "A bolsa da mulher carrega uma parte de cada item de sua intimidade, e que não deve ser compartilhado com ninguém."

Por fora, bela viola

A outra dimensão - externa - tem função de mostrar ao mundo a personalidade e status social de sua dona, contribuindo com a construção de sua identidade perante a sociedade.

"Quando analisamos dois lutadores de artes marciais, por exemplo, sendo um faixa branca e um faixa preta, julgamos antecipadamente que o faixa preta é um melhor lutador que o faixa branca. Ao compararmos duas mulheres, uma com uma bolsa Fendi a tiracolo e outra com uma bolsa ‘genérica’, pré-julgamos que a dona da Fendi, a princípio, possui uma condição social melhor que a outra mulher. É puro simbolismo de status", demonstra.

Nesse jogo, até mesmo o tamanho da bolsa constrói parte da imagem de sua usuária. Assim, segundo Cesarino, uma mulher precavida utiliza uma bolsa grande, larga, cheia de seções para carregar tudo que possa imaginar. Uma mulher prática carrega consigo uma bolsa menor, para comportar os poucos itens que carrega consigo. Já aquela que nunca utiliza bolsa pode até mesmo ser considerada desleixada.

Além disso, mais do que um acessório, a bolsa simboliza a emancipação feminina. Antigamente, ela só servia para carregar o missal, aos domingos, na missa - época em que a mulher era reduzida ao serviço doméstico, sem vida social e cuja única diversão estava ao lado de marido e filhos. "A partir do momento em que a mulher passou a ter mais penetração na sociedade, a bolsa passou a acompanhá-la em todas as suas ações, e assim ampliando suas funcionalidades e se ajustando às novas necessidades desta mulher emancipada."

Gadgets e mais coisas

Homens: não pensem que vocês estão livres desse mal. Guto Marinho, professor e coordenador da pós-graduação em design de acessórios de moda da Faculdade Santa Marcelina explica que cada vez mais homens consomem moda.

Apesar do crescente uso de bolsas e moda pelos rapazes - Cesarino conta que carrega três bolsas em seu carro: uma para seu trabalho durante ou dia, outra para lecionar durante a noite e outra para a academia -, seu simbolismo passa longe do feminino: "A bolsa para o homem possui apenas a função prática de carregar e organizar os itens. O homem não escolhe sua bolsa pela marca (muitas vezes é pelo preço mesmo), e assim que puder não estar com ela, ele se livra da mesma", diz Cesarino, sincero.

Em contrapartida, cada vez mais, mulheres consomem tecnologia. "Tem aquela história do ‘mulher gasta dinheiro com que? Calçado, bolsa?’. Ela também compra tablets, celulares novos, iPods, iPads. O mercado de moda está perdendo consumidores para os eletrônicos", balanceia Guto.


Mas, apesar dos estudos, Frederico Cesarino reconhece que, talvez, seja muita ambição masculina tentar entender um universo tão particular.

"Talvez seja pretensão do sexo masculino estudar este tema. Por mais que sejam criadas teorias e escritos ensaios sobre algumas peculiaridades do sexo feminino, nunca o homem conseguirá ter o pleno conhecimento de seus sentimentos, do que se passa em suas cabeças", conclui. Esperto ele, não acham?

Por Ana Paula de Araujo (MBPress)

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