Ilana Casoy - focada nos crimes em série

Ilana Casoy

Foto Divulgação/Assessoria de Imprensa

Ilana Casoy é diferente da maioria das mulheres. Ela não se interessou por assuntos ditos como femininos como romances, moda, beleza ou estética. Contrariando o padrão, a sobrinha do jornalista Boris Casoy, investiga e escreve sobre crimes em série. Encara diariamente mortes, sangue e assassinos. Em entrevista exclusiva ao Vila Mulher, ela contou como surgiu esse despertar pelo assunto.

Há, aproximadamente, dez anos você estuda crimes violentos e assassinatos em série. O que te motivou a escrever sobre o assunto?

O que me motivou a escrever sobre o assunto foi o fato de que a mente humana sempre me intrigou em seus aspectos extremos. Chegou um momento em que ler fatos sobre violência já não era suficiente, eu precisava entender como uma criança aparentemente igual a todas as outras chega à idade adulta cometendo atos que para a sociedade são impensáveis. Queria ter um melhor conhecimento da mente. Talvez entendendo os fatos seja possível modificá-los. Nunca encaro este assunto com frieza; também me revolto, esbravejo e não me conformo. Mas nos momentos mais difíceis, me lembro que os mortos precisam contar sua história, muitas vezes interrompida por um "ser humano" cruel e violento.

Como a sua carreira se desenvolveu?

Comecei minhas pesquisas pelo Museu do Crime (na academia de polícia da USP), fui para o Museu do Tribunal da Justiça, participei de um curso de perícia da Academia de Policia e assim fui trilhando este caminho, uma coisa levando à próxima. Depois disso comecei o meu trabalho de campo, entrei em contato com pessoas relacionadas a cada caso e aos poucos a cadeia de relacionamento profissional foi se formando. Tenho excelentes oportunidades de pesquisar e estudar esse assunto, já que estou integrada numa equipe multidisciplinar composta por psicólogos e psiquiatras forenses, médico-legista, promotores de justiças e advogados que estudam todas as facetas do crime. Desde a leitura e acompanhamento de inquéritos policiais, laudos de insanidade, até o momento em que o indivíduo está no processo do julgamento ou mesmo cumprindo sua sentença.

Quais crimes mais te chocaram?

O crime que mais me choca sempre é aquele no qual estou trabalhando no momento, uma vez que tenho que “entrar” na mente de assassinos tão cruéis. Todos os casos são horríveis e me tocam, pela violência dos atos ali praticados, pela vítima, pela motivação. Para escrever um caso, por exemplo, eu tenho que andar com os sapatos dele, pensar da forma em que agiu, visitar os locais de crime. É um processo muito doloroso, mas que quando resolvido dá uma sensação muito especial, de dever cumprido. Quando você vê o assassino na televisão, ele é apenas um monstro cruel. Mas quando você está perto dele, a sensação é confusa, porque você tem que lidar com um indivíduo que, em muitos aspectos, é igual a você. Por mais que rejeitemos a idéia de que um ser humano, alguém da mesma espécie que nós, seja capaz de cometer tamanhas atrocidades, ele é um de nós.

Das duas práticas, qual te instiga mais? Escrever ou investigar?

As histórias que escrevo hoje decorrem de investigação da qual participei de alguma forma, então as duas coisas me realizam. A prioridade fica estabelecida pela urgência da vida real, ou seja, quando sou chamada para colaborar em algum caso, seja na fase policial ou processual, isto tem que ser feito imediatamente. Os livros sempre podem esperar...

Quais fatores "constroem" um serial killer? A infância é a fase da vida que mais afeta a mente de alguém ao ponto de se tornar um matador?

Ninguém nasce um "serial killer" e não há padrões de identificação. Matar em série é um tipo de comportamento criminoso e não uma categoria de personalidade. No passado de cada criminoso hediondo existe um tripé: biológico, social e psicológico. O gatilho que desencadeia o impulso criminoso é variado, advindo de uma situação estressante para ele, e em geral ocorre entre os 20 e 30 anos. Na minha experiência empírica, existe uma coerência entre o histórico de um criminoso assim e o adulto em que ele se transformou.

Pensa em escrever um próximo livro? Como seria?

Sempre estou escrevendo os próximos livros. Eles envolvem casos atuais e os estudos permanentes que fazem parte da minha vida. Gostaria de produzir livros com mais rapidez do que de fato faço, mas nessa época de crimes tão violentos, não posso dispor do tempo necessário para a literatura tanto quanto gostaria. Também dependo, muitas vezes, do próprio andamento processual do caso, para que cada história tenha seu final. Como no Brasil a justiça é lenta...

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Fonte - MBPress

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