Histórias de recomeço

Histórias de recomeço

Lina de Albuquerque. Foto: divulgação

As vezes não tem jeito, a situação chegou em um ponto que a única coisa que podemos fazer é começar tudo de novo. Isso pode ser no trabalho, no amor, na família, por adversidades, rompimentos, fatalidades ou até por causa de um novo amor. Recomeços são inevitáveis e por mais difícil que a situação pareça, pode ser a chance de tornar a vida bem melhor.

Algumas pessoas tem histórias muito interessantes de novos rumos dados a vida. A jornalista Lina de Albuquerque colheu algumas e escreveu o livro “Recomeços”. Nele, 26 pessoas, entre homens e mulheres, famosos e anônimos, ricos e humildes, empreendedores e funcionários, artistas e religiosos, músicos e jornalistas contam como enfrentaram as mudanças de suas vidas.

Os depoimentos são narrados em primeira pessoa. Há histórias de conhecidos, como Elza Soares, Barbara Paz, Lily Marinho, Dorina Nowill, Chico César, Paulo Borges, Adriana Bombom, DJ Zé Pedro e Lucinha Araújo e também de anônimos, como o pedreiro Evando dos Santos, que se alfabetizou aos 18 anos e fundou 37 bibliotecas pelo Brasil, e a economista Giuliana Marsiglia, que deixou uma rotina estressante no mercado financeiro para administrar uma pousada no litoral e viver com um pescador.

Histórias de recomeço

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Para saber mais sobre a produção do livro, o Vila Glitter conversou com a autora Lina Albuquerque que deu detalhes interessantes, como o fato de que ela iria recusar o convite para fazer o livro e como se surpreendeu com todas as histórias. Confira:

Como surgiu a idéia de fazer o livro contando histórias em primeira pessoa?

A idéia não foi minha; a resistência, sim. Quem me convidou para fazer um livro com depoimentos de mudanças, reviravoltas e superações foi o jornalista Luís Colombini. Antes mesmo de a sua editora, a Versar, ter selado uma parceria com a Saraiva. Ele queria editar um livro contendo histórias inspiradoras em torno desse tema, com depoimentos em primeira pessoa de anônimos e famosos, ricos e pobres, funcionários e empreendedores, enfim, gente capaz de dar uma grande virada a partir de um momento difícil de suas vidas.

A psicologia chama essa capacidade de “resiliência”, curiosamente um termo que saiu da Física antes de se deitar nos divãs. São os grandes “saltos vitais”, que alguns são capazes de fazer e outros não.

Como você selecionou as pessoas que deram os depoimentos?

Alguns foram selecionados ali mesmo, numa mesa de restaurante, na noite que fui encontrar Colombini para recusar o convite e acabei aceitando. Conto isso na apresentação do livro. Havia algumas histórias bem conhecidas, como a de Lucinha Araújo, que perdeu o filho Cazuza de Aids e fundou uma entidade em prol das crianças e adolescentes portadores do vírus HIV. Ou de Lily Marinho, viúva de Roberto Marinho, que se casou com ele com quase 70 anos (Roberto tinha 84).

Outras histórias foram chegando no decorrer do processo, como a da economista que abandona o mercado financeiro e se casa com um pescador, ou do ex-pedreiro que se alfabetiza aos 18 anos e dedica a outra metade da vida a fundar bibliotecas (ao todo são 37) pelo Brasil, a última delas com projeto de Niemeyer.

Você já conhecia bem todas as histórias ou se surpreendeu muito durante a produção do livro?

Eu me surpreendi o tempo todo, mesmo com as histórias que eram conhecidas. Eu sabia, por exemplo, que Georgette Vidor, a técnica de ginástica artística mais premiada do país, tinha continuado a exercer o seu ofício depois de ter ficado paraplégica num acidente de ônibus. Mas eu desconhecia o tamanho da sua capacidade de superação. Ela fez com que a essência de um esporte para o qual se dedicou a vida inteira se tornasse a sua principal aliada. “Quanto maior o limite, maior o desafio”, diz Georgette. Quem lê o seu depoimento percebe facilmente que essa não é apenas uma frase de efeito.

Eu também tinha conhecimento de que Chico César tomou um terrível golpe de seus empresários. Mas não sabia o quanto aquela traição abalou a sua estrutura de confiança e o que ele fez para não se tornar uma pessoa amarga e sem fé no ser humano. Apesar dos revezes, nem Chico e nem Georgette perderam o foco do que realmente era importante em suas vidas.

Qual era o seu objetivo quando decidiu escrever o livro?

Seguramente, não foi o de escrever um livro de autoajuda. Mas eu queria poder contar histórias que pudessem inspirar outras pessoas que também estivessem passando por momentos difíceis de mudanças ou rupturas. Nem eu e nem o Luís Colombini pensamos em colocar um chip na cabeça de ninguém. Cada um sabe o tamanho da sua dor e da disposição de superá-la. Nem sempre se supera. Em alguns casos, como o de Lucinha Araújo, mesmo a dor que não saiu do peito pode ter um enorme poder mobilizador para ajudar outras pessoas.

Para você, quais são as histórias mais emocionantes, mais fortes?

Fortes e emocionantes são todas elas. Algumas não tiveram o peso trágico, como a de Ronaldo Polito, que deixou de ser gerente de banco para recomeçar a sua carreira num momento de estabilidade. Em seu depoimento, Polito diz: “Meu futuro parecia perfeitamente garantido. Para que arriscar uma mudança numa fase tão estável? Porque estar razoavelmente satisfeito não é o mesmo que ser feliz”. Polito se tornou professor de oratória, formou mais de 40 mil alunos e, dos 18 livros que escreveu, cinco entraram na lista dos mais vendidos. Mas ele assegura que percorreria o mesmo caminho, ainda que continuasse ganhando menos do que no banco.

Da mesma forma, Zé Pedro primeiro abandonou um trabalho no banco para ser DJ e depois deixou uma parceria na televisão com Adriane Galisteu para não se distanciar do que realmente era mais importante na sua vida: a música.

O relato de João Carlos Martins, o pianista que se tornou regente depois de sofrer inúmeros acidentes com as mãos, é ouro puro. Também gosto muito das provocações que o jornalista José Hamilton Ribeiro e Dorina Nowill fazem em duas passagens do livro. O primeiro, que perdeu a perna na Guerra do Vietnã, responde assim quando o apresentador de televisão pergunta se é difícil ser um repórter de uma perna só: “É mais difícil do que com duas. Mas é mais fácil do que com quatro”.

Já Dorina Nowill, a fundadora da Fundação Dorina Nowill para Cegos (que por sinal completa 90 anos no próximo dia 28), conta como é desagradável o abuso do diminutivo no tratamento de pessoas com deficiências. Como presidente da União Mundial dos Cegos, ela viajava constantemente para representar a organização em diversos países.


São 26 histórias, pretende lançar mais livros nessa linha? Já tem alguma outra história que gostaria de contar?

Qual a linha de livro a que você se refere? Espero que não seja a de “autoajuda” (risos). Talvez fosse um pouco de cabotinismo de minha parte dizer que gostaria de escrever outros livros de “altoajuda”, com L mesmo, como alguns amigos asseguram ser “Recomeços”. Espero realmente que ele seja de “alguma” ajuda. Mas gostaria que o meu próximo livro fosse engraçado. Ainda não cheguei ao ponto de perder um amigo para não perder a piada, mas já perdi algumas oportunidades de rir e de fazer os outros rir também.

Por Larissa Alvarez

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