Entrevista | Ana Muller canta a representatividade que queremos

Transtornos psiquiátricos, depressão e romance LGBT embalam as canções de Ana Muller. Saiba mais:
Ana Muller

Foto: Sarah Outeiro

O som é leve e a voz suave. As letras, são carregadas das mais profundas emoções, das mais doces às mais doloridas e cheias de caos. Assim é a Música de Ana Muller, artista capixaba, que expandiu seu talento do interior do Espirito Santo para o Brasil e o mundo. Contabilizando mais de 11 milhões de views no Youtube e mais de 100 mil ouvintes no Spotify, Ana é do tipo de artista que inspira, empodera e transmite mensagens sobre temas como depressão, ansiedade, amor LGBT+, questões de gênero e até esquizofrenia. 

Natural de Ibatiba-ES, ela compõe desde criança. “Vim para Vitória e então aos 16/ 17 anos formei minha primeira banda. Após a banda acabar, amigos sempre me pediam que eu enviasse músicas. Para que tudo ficasse mais fácil, fiz um vídeo profissional da música “Deixa” e coloquei no Youtube”, contou. A partir daí tudo mudou. O vídeo foi compartilhado pelo Brasileiríssimos e os fãs começaram a surgir. Logo veio o convite para fazer o primeiro show, que deu sequência a uma onda de sucesso.

Musicalidade

Voz e violão marcaram o início da carreira de Ana, mas tudo isso veio de família. “Minha principal inspiração para música é meu pai. Ele sempre tocou de ouvido e eu sempre acompanhei, desde criança, esperando minha mãe chegar do trabalho. Minhas referências são o que ele ouvia, como Zé Ramalho, Alceu Valença, Fagner. Depois comecei a ouvir Caetano e Cássia Eller, que foi um ícone”, disse.

Amante da língua portuguesa, a cantora diz que acha o nosso idioma o mais bonito de todos.  “Eu sempre gostei muito de música brasileira e sempre ouvi muito mais músicas nacionais do que internacionais”. Segundo ela, usar uma linguagem direta é a chave para representar o público. “Eu faço muito isso com a influência da música caipira de raiz, que tem essa singeleza nas palavras simples, mas com força muito grande” conta.  

Letras poderosas

Ana Muller

Foto: Sarah Outeiro

Mulheres lésbicas, pessoas com depressão ou transtornos psicológicos sã os principais o temas das canções de Ana Muller. “Eu sempre fiz música de mulher para mulher de uma forma natural. Quando comecei minhas músicas algumas pessoas me questionaram sobre isso, mas sempre foi de mulher para mulher e nunca vou mudar isso”, disse. 

Ana contou ao Vila Mulher como foi a descoberta da sua sexualidade e a relação com a música neste período. “Quando eu era adolescente, sempre soube que era diferente. Eu não me sentia representada por ninguém e sentia que mulheres lésbicas eram a escória da sociedade. Não se via elas sendo qualquer coisa que elas quisessem ser. É legal saber que, a partir da minha música, uma adolescente de 14, 15 anos poderá saber que não está sozinha”, conta. 

Ana Muller

Foto: Zéca Vieira

A artista diz que também dedica sua música para pessoas com depressão ou transtornos psiquiátricos, e a história por trás disso é inspiradora. “Eu passei por 13 anos de depressão. Quando você passa por um processo assim, você perde sua identidade, não sabe o que quer ou gosta. No meu caso, a doença veio acompanhada de esquizofrenia, o que gerou muito preconceito da minha parte”, desabafa a cantora, que ressalta a importância de falar sobre isso abertamente.

“Em tudo que envolve a minha carreira estou sempre falando das pessoas que tem algum tipo de transtorno psiquiátrico porque eu tenho. E a gente precisa aprender a conviver com isso e achar alguma beleza, porque não existe evolução sem caos.  Nas minhas músicas mostro que sim, estamos passando por problemas, mas vamos passar por isso da melhor forma possível”.

 O amor dos fãs exerceu um papel fundamental para ela. “Nos meus shows cheguei a pesar 36kg e as pessoas vinham me abraçar, orar e torcer por mim. Hoje, eu não sou mais uma pessoa sozinha pois sei que além da minha família, existem pessoas que dependem meu trabalho para continuarem. Quero que elas vejam que se eu consigo elas também conseguem”.

Novo álbum no forno

Ana Muller

Ana Muller em Brasília. Foto: Nina Quintana

O novo álbum de Ana Muller deve ser lançado em 2019. Segundo ela, este trabalho vem com o sentimento de lapidação, limpeza e mais voz e violão. “Vamos resgatar a essência mais densa, sem que seja para baixo. Vai falar muito do processo de caos e evolução, da minha descoberta enquanto gênero fluido, o que é bom e o que é mau”, comenta.

Por enquanto, vale a pena ouvir o EP “Ana Muller” nas plataformas digitais. Dá só uma olhada:

Por Thamirys Teixeira

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