Você largaria tudo por amor?

Você largaria tudo por amor

Arquivo pessoal

"Fundamental é mesmo o amor. É impossível ser feliz sozinho", já dizia Tom Jobim. Há pessoas que para colocar essa frase em prática e viver para sempre ao lado da cara-metade, são capazes de deixar família, emprego e até o país.

A jornalista Fabiana Bacchini, de 38 anos, sabe bem o que é isso. Ela conversou com o Vila Mulher durante uma visita ao Brasil e contou que deixou um emprego estável em uma grande emissora de TV e terminou um noivado para correr atrás de um canadense de 39 anos que havia conhecido sete anos antes. Acredita?

Mas vamos começar do começo. Fabiana estudava inglês em Londres. Em junho de 1996, foi para a Grécia nas férias e conheceu Stelios, um oftalmologista canadense, filho de gregos, durante um passeio de ferry boat de Mikonos para Santorin. "Ficamos amigos e como ele falava grego (os pais dele eram de Creta), arrumou um hotel mais barato. Eu e minha amiga acabamos ficando no mesmo hotel que ele e os três amigos", lembra. "Achei o rapaz divertido, mas não me interessei por ele no começo".

Da Grécia, Stelios ia para Londres de férias por uma semana. Então, como Fabiana estava morando lá, deu seu telefone e falou para ele ligar. "Rodamos a cidade londrina por uma semana no final de julho. Na última noite de Stelios no local, demos um beijo na Trafalgar Square", conta a jornalista. Depois disso, ela e Stelios começaram uma amizade. E como naquela época ainda não havia internet, se correspondiam apenas por carta, com direito a selo e tudo. Isso aconteceu durante três anos, sem nenhum contato físico.

Em janeiro de 1999, Fabiana foi passar seis meses em Israel para fazer um trabalho voluntário e mandou um cartão postal para o rapaz. Stelios então mandou uma carta dizendo que iria para a Grécia e que queria vê-la em algum lugar da Europa. "Como eu iria voltar para Londres, marcamos de nos encontrar lá. Assim que o vi de novo percebi que estava diferente e o achei atraente", revelou. "Passamos dois dias juntos e foi o suficiente para que eu me apaixonasse. Achei que ele era a minha alma gêmea, mas não via nenhuma possibilidade de haver um relacionamento. Curiosamente, em Israel, Fabiana havia lido uma matéria sobre como encontrar sua alma gêmea. "Tenho a matéria guardada até hoje" afirma a jornalista.

Na segunda noite juntos em Londres, os dois passaram pela Trafalgar Square e lá fizeram uma brincadeira que marcou a comédia "O Casamento do Meu Melhor Amigo". Neste clássico filme, Julianne (Julia Roberts) e Michael (Dermot Mulroney) eram amigos inseparáveis e fizeram uma promessa: se não se casassem quando completassem 30 anos de idade, os dois iriam se unir.

Em dezembro de 1999, Fabiana voltou definitivamente para terras brasileiras e, com o advento da internet, passou a trocar e-mails com Stelios. "Não tinha pretensão de ficar com ele, de ir embora do Brasil, apesar de já ter morado fora durante um tempo", conta. E disposta a fincar os pés por aqui, a moça arrumou um namorado e emprego estável numa importante emissora de TV.

Em fevereiro de 2000, adivinha quem deu as caras em terras brasileiras? Isso mesmo, o oftalmologista. "Ele veio para passar o Carnaval. Ficamos juntos. Mas quando acabou a festança eu dei um basta", lembra. E entre 2000 e 2001, não houve nenhum contato entre eles.

Desde então, os dois pararam de se falar e Fabiana não pensou mais no estrangeiro. Um belo dia, ele mandou um e-mail, convidando-a para passar as férias no Canadá. Ela recusou. "Depois disso, comecei a pensar: ‘Caramba, será que eu estou deixando o cara que eu gosto escapar?", lembrou. "Pouco tempo depois, ele me mandou um e-mail dizendo que gostava de mim e que eu poderia ser a mulher da vida dele. Mas como eu tinha outro - estava noiva na época - me desejou felicidades".

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A hora de decisão

A mensagem mexeu de vez com o coração de Fabiana. E decidiu que não poderia deixar essa oportunidade escapar. "Liguei para conversarmos. Stelios disse que a gente tinha que se ver para decidir se era tudo ou nada. Então ele veio para o Brasil e passou um fim de semana". Depois da conversa, ficou decido que ou a jornalista ia para o Canadá ou não rolaria nada entre eles. "Eu não queria ir para lá por conta do inverno intenso. Mas a gente tinha tudo a ver, então fui. Pedi demissão - tinha acabado de fazer uma pós -, terminei o noivado e fui com a cara e a coragem em meados de 2002", afirma.

Fazendo uma conta rápida, Fabiana diz que ao longo desses sete anos ela e o canadense tinham passado por volta de 40 dias juntos. "Estava disposta a morar junto para testar. Mas depois de um mês, ele me pediu em casamento. Mandou fazer uma foto de parede a parede da Trafalgar Square (local do primeiro beijo) e fez o pedido no dia do meu aniversário de 30 anos (coincidentemente fazendo referência ao filme de Julia Roberts). Ele disse: ‘Já que não podemos estar na Trafalgar Square, eu a trouxe até aqui’. Tenho a foto guardada até hoje".

Fabiana e Stelios se casaram em setembro de 2003 em Toronto. E em fevereiro de 2004, trocaram alianças novamente, desta vez em terras brasileiras. Hoje eles já têm um filho de um ano e oito meses, feito aqui no Brasil e nascido no Canadá. "Fizemos tratamento durante anos onde morávamos, mas não deu resultado. Resolvi dar um tempo e vim para o Brasil. Na primeira tentativa aqui, deu certo". E completou: "Lá no Canadá só tem parte normal. Eu sofri um bocado, o pós-parto foi sofrido. Para a brasileira é um choque!", relembra.

Vida nova

Fabiana conta que começou do zero. Não tinha celular nem plano de saúde, além de ter se adaptar às diferenças culturais. "Eu vivia a vida dele. Os amigos dele e os locais que ele freqüentava", lembra. "Então comecei a procurar emprego como jornalista. Essa fase foi bem difícil, pois o inglês não era a minha primeira língua. Mas depois de um ano consegui uma vaga numa emissora de TV fazendo o mesmo que eu fazia no Brasil".

A jornalista ficou três anos nessa empresa, mas era muito longe da casa dela. Então em 2006, resolveu montar seu próprio negócio. Abriu uma importadora de lingeries. Comprava as peças no Brasil e revendia no Canadá. Esse projeto durou até janeiro de 2010. Agora está aberta a novos projetos.

A vida da moça foi mudando ainda mais quando ela descobriu outras brasileiras na mesma situação que ela. A primeira que conheceu era mulher de um dos pacientes de Stelios. "Começamos com um grupo de cinco e hoje somos cerca de 30, quase todas com filhos. A gente se encontra uma vez por mês. É legal, pois falamos português, dividimos as dificuldades, trocamos experiências. É uma forma de vermos que não estamos sozinhas no barco", explica.

Para visitar a família, Fabiana vem para o Brasil duas vezes por ano. "O meu marido adora vir também. Curte música brasileira e se vira bem aqui sozinho. Ele aprendeu a falar o português ouvindo CDs no carro, mas os verbos ele pronuncia todos no infinitivo", conta aos risos.


Arrependimento? Fabiana confessa: "Cheguei sim a me arrepender algumas vezes. É tão difícil... Quando eu decidi foi por impulso, estava apaixonada, sabe? Não medi as consequências. Quando eu cheguei lá, a primeira semana foi ótima, mas depois vem a realidade. Não tinha emprego, não podia dirigir, não tinha nada. Mas hoje estou muito feliz", finaliza.

Por Juliana Falcão (MBPress)

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