Vítimas da violência doméstica

Vítimas da violência doméstica

O relato da Vilamiga “Menina Triste” trouxe à tona na comunidade um assunto preocupante na realidade brasileira, a violência doméstica.

Boa parte das mulheres que não foram vítimas de agressões, sejam elas morais ou físicas, pelo menos conhece alguma amiga ou parente que já passou por isso. A pesquisa Instituto Avon/IBOPE - Percepções sobre a Violência Doméstica contra a Mulher no Brasil realizada em fevereiro desse ano nas principais cidades brasileiras traça um panorama e comprova que 55% dos brasileiros conhecem casos de agressões familiares contra a mulher.

Entre os vários comentários de mulheres que enfrentam ou enfrentaram esse sofrimento, observa-se é que muitas delas tomam coragem de denunciar os seus maridos ou companheiros, entretanto acabam voltando para a casa por uma série de razões.

Conforme o estudo, 24% dos entrevistados acham que é por falta de condições econômicas, 23% atribuem à preocupação com a criação dos filhos e 17% pensam que a relação não é desfeita porque a mulher tem medo de ser morta.

Ana Silvia Passberg Amorim, presidente da ONG DCM (Defesa e Cidadania da Mulher) de Praia Grande - cidade do litoral paulista -, que também deu sua opinião na comunidade, explica que as agredidas somente procuram ajuda depois de um ano ou mais de angústia. “Muitas após a serem atacadas. Logo indicamos buscar a delegacia da mulher, onde será feito o Boletim de Ocorrência (BO) e o exame de corpo de delito. O problema é que muita delas tem medo de fazer a queixa. A Lei Maria da Penha melhorou bastante a questão da violência doméstica (antigamente, por exemplo, a mulher podia desistir da denúncia na delegacia. Hoje, a renúncia ocorre somente perante o Juiz). Entretanto, muitos municípios ainda não tem uma casa de retaguarda para abrigá-las. Por isso voltam para seus lares”, explica.

Idealizadora do projeto, que conta com 10 voluntários, Ana já recebeu muitas mulheres e adolescentes, uma delas grávida, que contraiu o lúpus e passou para o bebê. Uma das causas da doença, que altera o sistema imunológico, principalmente em mulheres, é o estresse.

Em muitos casos, as agressões começam por causa de discussões banais “como o feijão que queimou na panela”. No início, elas são apenas verbais, depois viram empurrões, tapas, e assim por diante. “Por incrível que pareça, às vezes, elas até se sentem culpadas e acreditam que o marido é o coitadinho da história. O homem sabendo disso se aproveita ainda mais”, conta a comerciante que nunca foi vítima e mantém um casamento saudável. Mesmo assim, sabendo dessa situação, resolveu fazer a sua parte.

Na maioria das vezes, o alcoolismo e o consumo de drogas também serve de desculpa para eles. Para se ter uma ideia, um estudo recente feita Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), com 7 mil famílias em 108 cidades do Brasil, comprova que em quase metade das agressões (49,8%) o autor das surras estava embriagado. A conclusão: é mais fácil perdoar quando o agressor bebeu. A vítima considera o álcool como culpado e não o violentador.

Os dados da pesquisa revelam algo que a presidente da ONG já observa nos atendimentos. Mulheres vítimas de violência também fazem parte da classe alta. Dos agressores bêbados, 33% são de classe média e 17%, de classe alta. Já no Disque-Denúncia 180 - que recebe ligações de todo País sobre violência doméstica, foi apurado que 48,7% das vítimas agredidas não dependem economicamente do agressor.

“Sempre incentivamos que elas busquem a delegacia e prestem a queixa e busquem seus direitos. Mas só isso não basta. É preciso resgatar a auto-estima dessas mulheres. Por isso ensinamos artesanato, que pode ser uma fonte de renda. Também usamos a biodança e este mês vamos começar com a dança do ventre. Dessa forma, elas tentam aos poucos, viver mais tranquilas com elas mesmas”, finaliza.


De acordo com a Organização Mundial de Saúde, a cada quatro minutos, no mundo todo, uma mulher é agredida dentro de casa. Lembrando que a lei Maria da Penha também pode ser aplicada em casos de namoro, mesmo que o casal não more junto, basta apenas que exista uma relação de intimidade entre autor e vítima para que a lei seja aplicada.

Por Juliana Lopes

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