Violência sexual: por que as mulheres ainda sofrem caladas?

Pelo fim da violência sexual

Foto: Adelaide Ivánova

Recentemente dois casos de violência sexual contra mulheres chocaram o mundo: em Nova Déli, a jovem fisioterapeuta Jyoti Singh Pandey, de 23 anos, estava num ônibus quando foi violentada e morta por seis homens. E em São Paulo, a estudante de Direito Viviane Alves Guimarães Wahbe, de 21 anos, caiu do sétimo andar de um prédio. A moça teria ficado transtornada após uma festa promovida pelo local onde trabalhava. Segundo investigações, ela teria sido estuprada durante o evento.

Estes são apenas alguns casos que chegaram a público, uma vez que, infelizmente, existem mulheres que já sofrerem algum tipo de violência e nunca tiveram coragem de procurar ajuda, de denunciar. Aí fica a pergunta: porque será que essas vítimas não se sentem seguras para se manifestar, lutar por justiça?

O Vila Mulher foi em busca dessa resposta e conversou com Branca Paperetti, psicóloga e coordenadora da Casa Eliane de Grammont, o primeiro serviço criado pela Prefeitura de São Paulo, em 1990, para trabalhar com mulheres em situação de violência doméstica e de gênero. Na opinião dela, a sociedade machista é um dos obstáculos que as vítimas têm dificuldade para ultrapassar. Ela inclusive pensa que não estamos tão distantes culturalmente do que aconteceu na Índia recentemente.

"A mulher que sofre um estupro ainda tem que se explicar, justificar porque estava na rua desacompanhada. Quando não ainda é indagada sobre que tipo de roupa usava... Essa é uma forma sutil e indireta de atribuir a responsabilidade, a culpa, a ela", critica. "Isso ainda acontece muitas vezes nas próprias delegacias e serviços onde vai procurar ajuda. A mulher tem medo do julgamento, de revivenciar o sofrimento ao ter que contá-lo e recontá-lo e, muitas vezes, ter que lidar com a impunidade."

A pernambucana Adelaide Ivánova e já sofreu esse tipo de violência. Ao fazer um curso de fotografia em Berlim, na Alemanha, desenvolveu um ensaio com mulheres que haviam sofrido violência sexual. Com a ajuda de amigos e da divulgação do projeto em seu blog, a jovem de 30 anos foi localizando as "modelos". Cerca de 60 mulheres de todo Brasil a procuraram e 12 foram fotografadas.

"O que eu queria era simplesmente mostrar que essas mulheres existem. Muitas das fotografadas me disseram que participar do projeto as ajudou não a superar, mas a lidar com o trauma, por poderem conversar com alguém abertamente sobre assunto", explica Adelaide. "Eu não estava ali como ‘investigadora’ apenas, mas como alguém que também queria encontrar meninas iguais a mim."

A pernambucana afirma que esse tipo de trauma não se supera. Você simplesmente aprende a lidar com o ocorrido. Ela, por exemplo, recorreu à terapia. E pensa que uma forma de amenizar a dor é não se culpar. "Não é álcool nem roupas curtas que causam um estupro, e sim um estuprador. Eu acho que o medo de denunciar vem do fato exatamente do receio de se sentir culpabilzada, se sentir responsabilizada pela tragédia - o que só aumenta a dor", pensa.

Como exemplo dessa sociedade machista, Branca diz que quando um homem tira a camisa, as pessoas pensam que ele está com calor. Já quando uma mulher usa um decote, ou uma roupa mais leve, esta sinalizando que quer sexo... ou pior, que consente que o sexo seja feito a força. "O fenômeno da violência contra a mulher precisa ser levado a serio pela sociedade como um todo. Políticas públicas precisam ser criadas e implementadas", defende.

A psicóloga explica ainda que é preciso diferenciar o estuprador desconhecido, que toma de assalto se aproveitando de alguma situação de vulnerabilidade, e o conhecido, parente ou com acesso à vitima e seus hábitos e intimidade. "Para o desconhecido valem as dicas de alerta já conhecidas, como tentar estar atenta e evitar, quando possível, situações de risco. E para o caso de agressor conhecido, é importante denunciar, falar para alguém de confiança".

Adelaide lembra a existência da Lei Maria da Penha, mas ressalta que o alto índice de impunidade dos agressores é outro fator que não inspira as mulheres a denunciar. "Vejo avanços desde que a lei foi criada. Mas não adianta nada se na Justiça ainda há tantos juízes e advogados cheios de machismo", lamenta.


E completa: "A lei funciona bem se a vítima for uma mulher ‘direita’. Se a vítima for uma menina normal que estava bêbada numa festa ou andando sozinha à noite, sinto informar que dificilmente haverá amparo legal". Duas das 12 mulheres fotografadas pela pernambucana denunciaram os agressores. Um deles foi condenado a uma pena simbólica e o outro ainda aguarda o processo em liberdade. "A luta da segunda menina segue com muitas humilhações, com o advogado do agressor tentando culpá-la pelo que aconteceu e até vitimizar o agressor. É muito triste."

Na Casa Eliane de Grammont é trabalhado o fortalecimento da mulher. Criam-se estratégias para ajudá-la a superar a situação da violência vivida. O atendimento é feito por psicólogos, assistentes sociais e defensores públicos. O endereço é rua Dr. Bacelar, 20, Vila Clementino São Paulo. Telefones: (11) 5549-9339 e 5549-0335.

Por Juliana Falcão (MBPress)

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