Soneto da ex-namorada

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solteira

Tem mulher que adora dizer que é solteira por opção.

Porque não sabe a sensação de preenchimento de estar com alguém.

Eu não sei, parece ser sempre igual, mas de alguma forma é sempre totalmente novo.

Você é chamada pelo mesmo nome que a sua mãe te deu, mas parece que está ouvindo pela primeira vez, de uma forma estranhamente emocionante. Como se nunca tivessem sorrido pra você da mesma maneira, como se o trabalho, a rotina, a cidade, tudo adquirisse uma lente nova, melhor, e que veio para ficar.

E todo mundo vê, vive aquilo com você, fica triste com você, comemora, se inspira, torce, e faz de você e ele aquele casal que todo mundo quer ser. De repente, você se sente a Rachel e o Ross da história de todo mundo, a Scarlett e o Rhett, a Rose e o Jack.

Aí um dia, sem nenhum aviso prévio ou sem consultar o público, a produção toma outro caminho: o arroz chuta o feijão.

WHAT???

E sempre tem um que sai da sala de cinema, muda de canal, boicota a série, e vai falar mal no Facebook.

E quem é que vai consolar as tricoteiras? A novela acabou antes do último capítulo!

Mas toda boa história tem um grande conflito. O público adora ver a fossa saga da heroína que é chutada, sofre horrores, chora por uma infância inteira, mas se levanta, luta por si mesma, e vira senhora do próprio romance.

E todo mundo adora falar de um babaca. Vai negar. É que todo babaca tem lá seu charme. Senão ele não teria nem a oportunidade de ser um babaca, certo?

É que a escolha dele, por mais cruel que possa ter sido com a heroína, também faz dele um herói - ainda que um anti-herói - da história.

Podem até chamar ele de galinha no começo. Mas depois de um tempo, todo mundo elogia ele por ter sido, acima de tudo, honesto, e que se não estava bom, era melhor mesmo que ele deixasse ela livre e não fizesse ninguém sofrer mais.

Sem ironias, até que é bem legítimo. E no final, ele conhece uma mulher que faz ele mudar de atitude, a mocinha conhece um cara super "queri" que estava de olho nela desde o começo - mas foi presidente da friendzone o filme inteiro -, eles até viram amigos em algum ponto, e todo mundo vai pra casa com o valor do ingresso bem gasto.

Mas nem todo roteiro é familiar e confortável pro público.

Porque ninguém sabe como reagir quando é ela quem dá o chute primeiro. Quando ela não é a vítima - e todos viram que não foi a vítima em nenhum momento da relação ou do término -, não há motivo no mundo que justifique uma nova solteira.

O que ela tem na cabeça? Como ela, nesse covil de babacas-que-não-querem-compromisso e desesperadas-que-estão-ficando-mais-desesperadas-que-nunca, pode dizer que se sentiu infeliz e vazia numa situação tão privilegiada, bonita e rara como essa?

Ela é a única que ainda não entendeu que o príncipe encantado não existe? Ela não se dá conta que o mercado está pior que nunca, não tem cara que preste, ela perdeu o lugar na mesa, e que boa sorte agora no final da fila de espera?

Como ela teve a pachorra - adoro quando consigo usar essa palavra - de destruir um casal tão lindo, tão "meant-to-be" aos olhos de todos, como fez um cara daqueles sofrer tanto com uma rasteira dessas?

Afinal, ele não deixou de cumprir nenhuma daquelas promessas. Ele foi do início ao fim, maravilhoso, fiel, carinhoso, dedicado.

Não foi? Todo mundo via! Não dá pra entender mulher! O que elas querem? E é por causa dessas bitches como ela, que não sabem valorizar um homem decente, que todos os dias se criam novos e novos babacas. E coitadas das solteironas que ainda estão esperando a vez delas e vão dar de cara com esses traumatizados com mulher.

Mas sabe de uma coisa? Quem não está no relacionamento, não sabe o que acontece no relacionamento.

Mas antes de apedrejar, o julgamento é muito correto: todo mundo, da amiga invejosa à prima encalhada, que não poupa a "vilã" da cara de decepção e esperança de reconciliação, vai questionar e dar a ela a voz que merece.

"Mas o que aconteceu, amada? Vocês eram tão perfeitos juntos!". Uhum, se você cativou o público, o final da história é da conta de todo mundo.

Como a Anna Karenina, do Tolstói, todo mundo tem um papel a desempenhar para a plateia. É responsabilidade sua não desapontar ninguém, e seguir com a história que todo mundo espera assistir.

É que a vida alheia é sempre mais interessante, né? Então faça a sua própria história, viva a sua vida como está julgando e fofocando que devo viver a minha, e depois a gente conversa.

Essa é a minha defesa - ainda em construção, eu sou aluna nova na sala - pra vocês. Ex-namoradas, ex-amigas, ex-amantes, e ex-esposas por iniciativa própria. As ex-mocinhas e as maiores vilãs de grandes histórias de amor, cuja coragem de tomar a decisão mais difícil e a melhor para todo mundo - sem esperar aplausos - e a elegância de não expor seus problemas pessoais e conjugais para madrastas, irmãs feias e até para a plateia insatisfeita, não é e nunca será compreendida.

Mas antes de esperar o perdão alheio, a gente tem que aprender a se perdoar. Afinal, todos tem suas próprias razões. Até aqueles que, sem convite, adoram te perguntar quais foram as suas.


Ex-esposa ou ex-namorada, sim.

Marianna Greca é publicitária e nerd assumida. SEO e Gestão de Conteúdo, Social Media, tradutora e desenhista compulsiva. Acredita que assumir a maternidade do mundo é o melhor caminho para a felicidade.
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