Solteira no fim do ano

Solteira no fim do ano

Foto: Tomas Rodriguez/Corbis

Todo ano a gente diz que o ano passou rápido. E todo ano reclamamos do tamanho das filas nas lojas, da bolinha da árvore que quebrou, da barba da tia avó que roçou na sua bochecha, do preço das cerejas, do vinho que caiu no vestido novo. Natal, além de comemoração, é confusão, pois sempre tem alguma briga em família, uma fofoca aqui e outra ali, um presente de amigo secreto que caiu mal.

O Natal virou sinônimo de comilança e consumismo. As propagandas mostram famílias felizes em noites felizes. Todos bem vestidos, bem escovados, bem alegres. Um casal feliz com uma criança feliz com um cachorro feliz. Mas a vida real nem sempre é assim.

Muita gente mora sozinha. Outros não têm família. E muitas mulheres não têm namorado marido, noivo ou pretendente (veja pelo lado bom: você não gasta em presente para ele, para a sogra, o sogro, a irmã, o sobrinho, o porteiro do prédio dele...). Como passar pelas festas de final de ano sozinha? Nesta época, parece que todo mundo tem que ter alguém, parece que todo mundo tem que sorrir.

Eu não gosto de Natal, mas tolero. Separo o figo do prato, deixo os fios de ovos para o fim da noite, tento fazer uma cara alegre ao ganhar uma caixinha de música cafona com uma bailarina igualmente cafona acompanhada de uma música cafona ao extremo. Faço tudo, e se tiver que cantar e dançar "Noite feliz" eu também topo. Sabe como é, a gente tem que se adaptar ao momento.

O Natal cobra das pessoas uma bondade que nem sempre existe. Por isso, muitos resolvem fazer caridade apenas nesta época do ano, o que é uma pena. Procuro ajudar os outros sempre que eu posso, não apenas quando bate o espírito natalino. Mas ainda penso que melhor uma vez por ano do que nunca, não é mesmo?


Se você é solteira ou mora sozinha ou não tem família, não fique triste nem se sinta mal. Pense pelo lado bom da história (acredite, sempre tem um): você não precisa gastar dinheiro com outras pessoas, no máximo com sua mãe ou sua melhor amiga ou com o amigo secreto. Você não precisa agüentar festas chatas de família, muito menos aquele tio bêbado fazendo vexame depois de comer peru. Você não precisa comer o que restou da noite no dia 24 no dia 25. Você não precisa aturar a ressaca da galera no outro dia. Você pode passar o Natal e o Ano-Novo onde quiser, do jeito que quiser. Você não precisa se preocupar com nenhum horário. Você pode viajar com seus amigos e curtir dias de festa. Você pode alugar vários filmes de mulherzinha, comprar sorvete e esquecer da vida. Você pode se dar um presentão. E, o melhor de tudo, você pode curtir (e muito) sua companhia.

Clarissa Corrêa é balzaquiana, sardenta, escritora e publicitária. Autora dos livros "Um Pouco do Resto", "O amor é poá" e "Para todos os amores errados".

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