Primeiro beijo

Eu adoraria dizer que o meu primeiro beijo foi algo cinematográfico. Mas não foi. De fato, foi uma situação patética, engraçada, da qual lembro com carinho, afinal eu tinha 12 anos e o garoto tinha 14.

Eu era tímida às pampas e ele era um menino bem bonitinho, educado, estudioso, que morava no mesmo prédio que eu. Só que na semana antes da gente começar a ficar de mãos dadas, ele tomou um puta tombo de bicicleta no condomínio e quebrou três dentes da frente. Teve sorte de não quebrar muita coisa além dos dentes. Teve de retirar as raízes dos dentes, esperar cicatrizar e fazer implante. Eu sei que foi uma sangueira e tanto no dia. Sabem como são garotos zunindo de bicicleta, especialmente em dias ensolarados de primavera, nos idos de 1982.

Assim, quando ele pediu ao meu padrasto para me namorar ele não tinha os três dentes da frente. Meu padrasto não deu a mínima, só exigiu que ele lavasse o carro dele toda semana, e o idiota concordou e cumpriu o combinado! Eu achei uma tremenda exploração!

Não sei bem as circunstâncias, mas meu primeiro beijo foi na semana anterior a ele colocar os implantes, ou seja, ele estava banguela. Foi um beijo ausente! No corredor do meu andar, ao me deixar na porta de casa! Êita coisa desengonçada e esquisita!

Os outros foram legais, mas aquele primeiro beijo foi muito assim, um salto no espaço daqueles dentes da frente que não existiam.

O namoro era uma coisa tão inocente! Mãos dadas, beijinhos tímidos e porta de casa. Nem me lembro direito da cara do garoto, de quanto tempo durou nada disso. Lembro de que eu não o quis mais, de ter me apaixonado por outro indigente qualquer do meu passado. E eu era muito independente, adorava andar sozinha pela cidade, ele era o filho perfeito da mamãe e eu sempre odiei essa coisa nada transgressora. Engraçado, pois eu parecia muito tranqüila, e era tudo menos.

Eu acho até legal que eu fosse assim travadona, em termos de maturidade sexual, comparada com as meninas de hoje em dia, e mesmo com outras meninas da minha idade. Coisas que vem devagar, com tempo e paciência, podem ser melhor aproveitadas.

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