Poliamor

A busca do poliamor

Foto/Divulgação

Psicanalista e sexóloga, Regina Navarro Lins é conhecida por suas pesquisas a respeito das mudanças no comportamento sexual, muitas delas polêmicas. Depois de escrever "O livro de ouro do sexo" (Ediouro) e "Amor a três" (BestSeller), ela revelou algumas de suas teorias a respeito do casamento. Para ela, a união como se vê hoje em dia está com os dias contados. Mais do que isso, a bissexualidade será algo comum e não haverá fronteiras para o que é feminino e masculino, por mais estranho do que pareça. Claro, que se tratam de projeções, talvez não tão impossíveis, porque se pararmos um pouco para pensar vamos observar que muita coisa já mudou em pouco tempo.

Em sua obra mais recente, sem nome ainda e com previsão de lançamento para o final de 2011, a sexóloga escreveu como o amor foi se modificando desde a Grécia antiga, passando pela Revolução Industrial até os tempos de hoje. Um detalhe interessante ao longo da história é refletir que na década de 40, isso há menos de 70 anos, o casamento começava ser algo comum para todos, com a ideia da fusão entre duas pessoas. E que agora já se pensa no poliamor, tema que Regina abordou em seu livro "A Cama na Varanda". Na forma "poligâmica" de amar, os casais têm um relacionamento aberto e tem o sentimento de saber que a pessoa amada é amada por mais alguém. Se isso vai acontecer ou não, só o futuro vai dizer, mas que a sociedade dá alguns sinais, muita gente já se deu conta.

A partir dos seus estudos e da sua experiência nos consultórios, você afirma que no futuro, algo próximo ou não, as pessoas não serão fiéis e irão buscar mais parceiros ao longo da vida. Diante disso, você acha que o casamento não vai mais existir?

Os casamentos de hoje são uma tragédia. Quase não se faz sexo neste tipo de união. Vários pesquisadores afirmam que somente entre 5% e 10% dos casais são felizes no próprio casamento. Eles observam os sinais e não fazem nada. Mas vejo que há muita gente mudando isso, tem uma outra mentalidade. Conheço muitos casais que começam a freqüentar casas de swing, até mesmo os conservadores, e que transam com outras pessoas durante o casamento, se sentem bem com isso. O casamento vai continuar, mas com certeza esse modelo tradicional de duas juntas e com a cobrança da exclusividade pode diminuir. A tendência é uma mesma pessoa ter vários parceiros e menos relações a dois, claro que isso tudo é lento e gradual, não sei precisar quando vai acontecer isso.

Você acha que homens e mulheres estão preparados para este tipo de relacionamento aberto? Vão saber lidar com sentimentos como traição e ciúmes?

Ciúmes e traição são questões culturais. Há 30, 40 anos atrás, era um escândalo uma mulher ter um amante. A exclusividade sexual era um tema muito fechado, mas que com o passar do tempo as pessoas começaram a discutir abertamente. Posso dizer que a pílula representou uma grande transformação na vida sexual, afinal ela fez com que o sexo não seja mais ligado à procriação, mas sim ao prazer. Observo que o amor romântico, em que um completa o outro, vai sair de cena. Um não vai mais idealizar o outro, mas sim aceitar a pessoa do jeito que ela é, sem exigências de exclusividade.

Isso faz parte da tese que você defende sobre o poliamor?

Sim. É uma questão bastante discutida, inclusive já participei de uma conferência, na Alemanha, que falou sobre isso. A ideia defendida é que podemos amar uma pessoa sem cobranças, pois, às vezes, fazemos uma opção e descartamos uma pessoa em benefício da outra, atitude cheia de dúvidas e conflitos. No poliamor, uma pessoa pode amar seu parceiro fixo e amar também as pessoas com quem tem relacionamentos extraconjugais. Ainda não temos como avaliar os prós e contras. Mas podemos, sim, afirmar que a forma como vivemos o amor é profundamente insatisfatória.

Mas a questão da infidelidade e do ciúmes?

Quem é a favor do poliamor argumenta o mais importante é saber viver naturalmente e respeitar essa liberdade. Não se trata de enganar nem magoar ninguém. Eles têm como princípio que todas as pessoas envolvidas estão a par da situação e se sentem confortáveis com ela. A idéia principal é admitir essa variedade de sentimentos que se desenvolvem em relação a várias pessoas, e que vão além da mera relação sexual. Como nenhuma relação está posta em causa pela mera existência de outra, mas sim pela sua própria capacidade de se manter ou não, os adeptos garantem que o ciúme não tem lugar neste tipo de relação.

Você já mencionou que em um futuro próximo o ser humano não vão se importar com o sexo da outra pessoa antes de se relacionar (de certa forma já vimos isso hoje). Na sua opinião, como será essa transição?

Antes as pessoas encaravam o sexo como algo pecaminoso e a sociedade sofreu muito com essa repressão. Com o passar dos anos houve a liberação sexual e também o individualismo, as pessoas estão buscando a valorização do ‘eu’, o que implica também na vida conjugal. Agora mais do que nunca homens e mulheres estão se aventurando em novas descobertas e isso inclui saber que cada um quer ser o todo, ou seja, não haverá mais a delimitação do passivo/ativo, que homens são fortes e mulheres fracas, mas sim a personalidade de cada um. Muita gente fala "esse é o meu lado feminino", e vice-versa, isso não existe. Todos nós temos os dois lados, e ressaltamos cada um deles conforme a própria personalidade. Cada vez mais haverá menos a marcação de masculino e feminino e a bissexualidade poderá ser comum, pois as pessoas vão se importar com as características.


São apenas tendências, não sabemos ao certo o que vai acontecer, mas sem dúvida, os homens terão mais dificuldades, pois ainda vivemos em uma sociedade patriarcal, e eles associam masculinidade com heterossexualidade.

Por Juliana Lopes

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