Os romances de Tarsila do Amaral

Os romances de Tarsila do Amaral

Foto/Arquivo de Tarsila do Amaral

Em plena década de 20, ela não apenas estremeceu o mundo da arte brasileira com seu talento, mas também chocou muita gente com o seu comportamento e irreverência. Vanguardista, a frente do seu tempo, assim ficou conhecida Tarsila do Amaral, um dos símbolos do modernismo.

Criada dentro da alta sociedade dos barões do café, a artista começou a pintar seus quadros depois de uma viagem a Paris. Na capital francesa, ela fez sucesso com obras como "A Negra" e trouxe na mala as influências cubistas. Antes da sua grande viagem, que mais tarde mudaria a sua vida, ela era casada com André Teixeira Pinto, com quem teve uma filha, Dulce, nascida em 1906. O relacionamento durou pouco, principalmente pela diferença cultural - o marido era contra ao seu desenvolvimento artístico. Mais tarde ela conseguiu a anulação do casamento e encontrou em Oswald de Andrade tudo que André não tinha. Os dois ficaram apaixonados e se casaram, isso em 1926.

Enquanto estavam juntos, a pintora elaborou "Abaporu", e deu de presente ao marido. O quadro foi considerado um dos precursores do Movimento Antropofágico no Brasil, que tinha a intenção de valorizar a cultura brasileira, entretanto Tarsila não participou da Semana de Arte Modernda de 22. Mais tarde, Tarsila teve um rápido romance com um psiquiatra comunista e acabou sendo presa. Em 1933, ela já estava no seu terceiro casamento, algo que chocava a sociedade.

Intensa nos relacionamentos e na sua própria arte, Tarsila não se importou em casar-se pela quarta vez. Aos 47, ela juntou as alianças com um homem de 27 anos, Luiz Martins, escritor e jornalista, com quem viveu por 18 anos.

"Tarsila foi uma mulher excepcional. Era inteligente, sensível, humana, elegante e culta. Além de uma mulher muito forte, porque superou as perdas da sua vida. Ela perdeu a única filha (Dulce, na década de 60), os irmãos queridos Mílton e Osvaldo, além de Cecília, sem contar as perdas amorosas", diz a sobrinha-neta chamada de Tarsilinha pela própria artista que pretende lançar um documentário sobre a vida e obra da tia-avó, previsto para maio ou junho do próximo ano.

O envolvimento com o trabalho de divulgação da artista começou há onze anos, com o livro "Tarsila por Tarsila", da Editora Celebris. "A partir da pesquisa montei o site (www.tarsiladoamaral.com.br), também um memorial na cidade onde ela nasceu. Antes era o meu pai que tomava conta dos negócios, mas com o tempo ele foi me passando algumas incumbências e hoje lidero isso". Em entrevista ao Vila Dois, Tarsila do Amaral, a Tarsilinha, conta um pouco do seu curto relacionamento com a artista e os romances vividos pela tia-avó.

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Quais são as lembranças que você tem dela do pouco tempo que conviveram juntas? (Tarsila morreu quando ela tinha oito anos)

Ela me adorava e ria muito com minhas travessuras de criança. Era sempre muito educada, falava baixo e me dava um beijo carinhoso. Ficava passeando pelo apartamento dela e vendo quadros por todos os lados. Lembro que ela nos visitava muito, também a minha avó. Era uma tia muito próxima, pois éramos nós que cuidávamos dela. Tarsila foi uma pessoa muito avançada, e por conta disso os próprios irmãos a rejeitaram, menos o meu avô, Milton. Então nós éramos o núcleo familiar dela.

Para você, qual foi o verdadeiro amor de Tarsila?

É difícil dizer, pois ela foi muito apaixonada por Oswald de Andrade. Acredito que foram os melhores anos da vida dela. Isso aconteceu quando ela estava em Paris, também quando a arte dela floresceu. Eles viveram um sonho, viajaram pelo Brasil, Europa e Oriente Médio, tudo com muito luxo, porque o pai de Tarsila tinha dinheiro. Sei que ela o amou muito, pois era um homem inteligente, espirituoso, afetivo, enfim, um homem apaixonante. Com o Luís Martins, ela também teve um romance forte, afinal, viveram juntos por 18 anos apesar da diferença de idade - ela era 21 anos mais velha. Na época foi um escândalo.

Nos arquivos de Tarsila existem cartas sobre o romance dela com o comunista Osório Cesar?

Eu sei que eles viajaram para a ex-URSS e participaram de uma exposição em Moscou. Lá ela vendeu o quatro "O Pescador", que hoje faz parte do acervo dão Museu Hermitage, de São Petersburgo. Eles foram também a um congresso do Partido Comunista em Montevidéu, além de participarem de reuniões do Partido Comunista do Brasil. Nessa época, ela foi presa por um mês e separou-se de Osório, não quis mais saber de política.


Ela viveu em uma época em que os relacionamentos eram mais românticos.Você acha que falta um pouco disso hoje em dia nos relacionamentos?

Sem dúvida. Em minha pesquisa pude ver, por exemplo, Oswald pedir Tarsila em casamento através de um poema. As cartas e telegramas trocados por eles eram extremamente românticos, além dos encontros, dos rituais. Era tudo mais formal, o que deixa um clima de mais romantismo.

Por Juliana Lopes

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