Origem do ficar

Origem do ficar

Ficar é verbo de ação para a juventude de hoje. Não é difícil escutar, em conversas entre eles, comentários sobre com quem ‘ficaram’ ou com quem sonham ‘ficar’. Mas você já parou para pensar de onde esse verbo preferido das relações quase-amorosas vem? Quando será que os jovens começaram a ficar? Seria um costume contemporâneo ao namorinho de portão dos anos 20? Reflexo da evolução desenfreada do amor livre dos anos 60? Ou outra nomenclatura para “dar uns malhos”, como faziam os jovens nos anos 80? Praticado livremente, o hábito desencanado de trocar carinhos parece ser mais recente do que imaginamos.

“O ‘ficar’ surgiu no Brasil, no início dos anos 90. Antes, rapazes e moças só se beijavam e se acariciavam quando estavam namorando ou dentro de um contexto de um compromisso sentimental”, afirma o psicoterapeuta Flávio Gikovate, autor de vários livros sobre relacionamento afetivo. Ele conta que, diferentemente do que muitos pensam, não foram todos os países que aderiram ao costume de beijar sem se envolver.

Segundo Flávio, no passado os namoros eram bastantes conservadores e, na maioria das vezes, as pessoas namoravam sempre na presença de alguma outra pessoa - condição que impedia grandes intimidades. Essa situação só começou a mudar com o aparecimento da pílula anticoncepcional, no final dos anos 60. “A justificativa para excessiva proteção familiar das moças era devido ao pavor das gestações indesejadas”, lembra. Com o passar do tempo, os namoros foram se tornando cada vez mais sexuados. Atualmente, alguns rapazes e moças têm até a permissão dos pais para transarem em casa.

Um dos jargões da década de 60 é “faça amor não faça guerra”. A partir dele, muita gente acredita que naquela época existiu uma libertação demasiada da sexualidade descompromissada. Flávio esclarece, no entanto, que a libertação sexual foi bem mais comedida do que imaginamos. “Naquela época, rapazes e moças passaram a se cumprimentar com um beijinho no rosto. Coisa que não acontecia até então”, diz. Segundo ele, a intimidade física entre amigos cresceu, mas rapazes e moças só se beijavam na boca quando namorados.

As viagens psicodélicas estão para os anos 60 assim como o hábito trocar carinhos sem se envolver está para os jovens de hoje. Flávio comenta que, para se soltar, naquela época, os jovens precisavam fazer uso de drogas, principalmente maconha. “Hoje é tudo muito mais leve e descomprometido. Antes, havia poucos relacionamentos superficiais”, compara.

Pessoas mais conservadoras enxergam de maneira negativa o jeito desencanado que a juventude tem de curar a carência. Na opinião do psicoterapeuta, beijar por beijar ajuda os jovens a trocarem intimidades com pessoas da mesma idade, o que não acontecia anteriormente. Enquanto os meninos perdiam a virgindade com prostitutas, elas só iam para a cama com o noivo um pouco antes do casamento.

Para Flávio, quem vive esse tipo de experiência moderna se sente mais livre dos medos relacionados ao sexo, e pode se tornar mais desenvolto em relação aos outros temores relacionados com o envolvimento amoroso mais intenso. “Saber separar o sexo do amor deverá ajudar muito as novas gerações a escolherem melhor os seus parceiros sentimentais e, também, a ativarem adequadamente a vida sexual no contexto das relações de boa qualidade amorosa”, acredita.

É importante ressaltar que o fato de as pessoas experimentarem mais antes de se envolver com alguém não significa que as relações casuais vão tomar o lugar do namoro e do casamento. Flávio diz que as pessoas vão se casar mais tarde, depois de terem feito todas as experiências que desejarem e se casarão mais maduras. E profetiza que as relações casuais perderão espaço, uma vez que não são muito gratificantes, nem mesmo para os homens. “Sexo casual e sem compromisso faz parte de uma fase da vida das pessoas e não será o estilo de vida da grande maioria”, acredita.

“Atualmente, adultos também tratam de ficar, mas são pessoas que fazem parte de uma geração que não vivenciou esse tipo de encontro na puberdade. É como se fossem criaturas tentando viver a adolescência que não tiveram”, pondera o psicoterapeuta.


Por Cínthya Dávila (MBPress)

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