Observador da alma feminina

Observador da alma feminina

Foto: divulgação

Nem sempre as palavras conseguem invadir a vida e transformar em frases o que o cotidiano teima em desenrolar. Mas, quando isso acontece, é preciso festejar. O livro de Gabito Nunes, um publicitário de 28 anos que escreve como se conhecesse cada um dos seus leitores, é desses que precisa ser comemorado. Como uma terapia na prateleira, com lombada quadrada, em deliciosas (e dolorosas) 238 páginas.

"A manhã seguinte sempre chega" (Editora Leitura, 2010), é feito em doses homeopáticas de realidade. Fala de namoro, rotina, sofreguidão, desespero, volta, amor por si mesmo. Não se sabe se a sinceridade do autor faz você não querer desgrudar do livro ou se é o espelho que ele propõe. Braço impresso do blog "Caras como eu", que nasceu depois de um coração bem partido como cano de escape para sentimentos de todo o tipo, o livro virou consequência quase óbvia.

Em conversa com o Vila Dois, Gabito explicou como são os ‘caras como ele’ e deu uma boa dica para superar um coração partido. Ele não tem a pretensão de explicar o que homens ou mulheres pensam (apesar de se travestir para tentar nos entender). "Eu narro vidas únicas, amores perenes, pensamentos e sensações momentâneas. Eternizo em papel experiências vividas em fragmentos de tempo. Não tenho pretensões bíblicas, rechaço essa ideia", detalha, sem polemizar. Mesmo assim, concorda que o time dele ainda está há alguns quilômetros quando o assunto é o coração. "A maioria dos homens não desenvolveu esse lado ‘sentimentalóide’ que, aliás, é super gostoso de viver", resume, modesto.

No livro, mostra o amor de verdade, que acaba e começa com a mesma força. "Aquele que funciona bem com as várias interfaces que o ser humano apresenta. Pra ser amor, preciso dizer isso com flores ou num jantar à luz de velas? Não. Posso dizer que amo enquanto você se agacha na gôndola pra pegar um enlatado. Mas amo mesmo assim. É isso". Ah, Gabito já superou a perda de ‘Ana’, a namorada que motivou o blog quando o deixou, e partiu pra outra. E dá a dica de como fazer o mesmo...

O que significa o ‘caras como eu’? Que são esses caras - e por favor, onde eles estão?

Caras como eu são todos os caras que não aparecem na televisão ou no showbizz como um todo. São os caras que toda mulher mortal e não ‘photoshopeada’ pode ter, querendo ou não. Batizei meu site na internet inspirado na música do Titãs: "Caras como eu, estão ficando raros..." e então a brincadeira rolou solta. Há de se convir que o tipo de material que eu produzia na web é um tanto inusitado. Um homem heterossexual, enaltecedor da beleza feminina total e amplamente, escrevendo sobre amor com sentimento e tesão. Então "caras como eu" despretensiosamente virou um conceito vanguardista ante os "homens-de-manual-de-revista". Mas na real, é só nome do meu projeto em geral, o título do meu site, a marca do meu trabalho. Como "A Comédia Humana" era para Balzac. O nome de uma série de obras.

Acha que o término da tua relação ajudou a moldar o cara que você é hoje? Ou você já era ‘diferente’ antes?

Todas as mulheres que me envolvi e não me envolvi são parte de mim. Costumo falar deste rompimento fatídico que me fez colocar as mágoas e as neuras no papel resultando em "A manhã seguinte sempre chega", porém cada caso valeu a pena, me fez quem sou e me gerou muitas ideias pra escrever sobre amor, mulheres e relacionamentos. Não me acho "diferente" a não ser pelo fato de ser mais corajoso para expor em palavras aquilo que os homens sentem e não sabem expressar. Mas, confesso, aos 10 anos eu já roubava as revistas de menina da minha irmã. Fui lendo, me interessando, aflorando mais esse lado emocional e aprendendo, desde cedo, a amar e me interessar por mulheres. Assim como alguém que gosta de comida e se torna chef ou gosta de carros e vira piloto. Cada um escolhe seu esporte. Mulher é o meu.

O livro ‘A manhã seguinte sempre chega’ é ficção - e semelhanças são mera coincidência? Ou tem muito de você nas páginas?

Sempre achei muito difícil um escritor ultrapassar sua própria experiência. Deve ser um trabalho e tanto interpretar personagens na escrita, formular tão detalhadamente incidentes e reflexões alheias à própria percepção. Tem muito de autobiográfico, mas essencialmente o livro é biografia das pessoas tangíveis à minha volta, situações e histórias que vi e vivenciei também. Acredito que toda história contada através de autor também passa a ser um pouco ele. O que difere um escritor de outro, na minha visão, é sua vida pessoal, a forma como vê o mundo e as coisas.

Você escreve como mulher, como homem, como quem quer que seja. De onde tira a sustância dos textos?

Bem, quando escrevo como homem fica mais fácil. Sou um, mesmo as leitoras não acreditando muito, vivem me dizendo que sou um fake de alguma escritora por aí. O fato de escrever como mulher é uma necessidade que vem de algum lugar, talvez algum analista explique, mas não quero saber a resposta. Muitas vezes parte de um desejo de interpretar o que elas querem dizer realmente e seus hormônios prolixos não deixam transparecer com clareza. É um esporte, uma terapia, um estudo para mim, além de ser altamente divertido. Já fui o melhor amigo de muitas mulheres, sempre gostei de ouvir, de trocar ideias. Precisava fazer algo com esse vasto material produzido em noites perdidas ouvindo devaneios e neuras femininas que se dissipariam pela manhã. Daí vem a sustância, a partir daí que eu escrevo.

Se considera um observador nato da alma feminina? Ou apenas tem a mira um pouco mais calibrada?

Em geral, homem não gosta de mulher, gosta de carro, de futebol. Sabe quem foi o atacante reserva do Vasco campeão de 89, sabe o que significa carburador, cárter e ventoinha. Eu gosto de mulher, aprecio a raça, tenho fascinação, sou um aficionado. Se isso me faz um observador de diferente quilate, tudo bem, eu aceito com humildade de aprendiz. Mas eu não sei nada sobre elas, pois elas mudam o tempo todo, são imprevisíveis. Não são como um motor que você ouve o ronco e já detecta o problema. A vida ao lado delas é um eterno desafio, uma adivinhação contínua e aí está a beleza da coisa. Minha mira não é calibrada, eu só presto atenção um pouco além.

O que acha das mulheres que insistem nos errados por acharem que os ‘certos’ estão em extinção? A gente consegue mudar alguém?

Eu acho que não existe certo ou errado, não existe amor errado, o amor não tem uma definição, um manual, uma explicação. Recados aos filósofos, os psicanalistas, aos neurocientistas: vocês estão perdendo seu tempo. A paixão é justamente a falta de controle sobre a própria sensação. E a gente não muda ninguém, quem o faz é o amor. E nunca temos o controle sobre onde isso vai parar.

‘A manhã seguinte sempre chega’ é sinônimo de pessimismo brabo (a vida é assim mesmo!!)ou pode ser otimismo?

É engraçado isso. Se você prestar atenção, tanto o título quanto a capa do livro, mostram a ambiguidade das relações. Aquele casal realmente está com algum problema? Parece que sim. Mas será mesmo? Não seria apenas a vida real, com seus momentos cotidianos? Ninguém ri e faz sexo o tempo todo e nem por isso a vida é um saco. No início do processo, quando alguém me perguntava o título do livro e eu dizia "A manhã seguinte sempre chega", quem estava na merda dizia "graças a deus!" e quem estava numa boa, só lamentava com a cabeça meio enviesada e os olhos cabisbaixos. Fiquei contente, por que isso reflete meus escritos. Eu escrevo metade das coisas nas entrelinhas e ficaria feliz se todos pudessem notar isso, o que só seria possível se eu assinalasse o sarcasmo e a ironia a cada frase. Mas aí não teria graça alguma.

Não acredita mesmo em final feliz?

Como pode ser feliz um final? Acredito em meios felizes. Mas eu não gosto do termo felicidade, do ideal por trás dele. A vida é feita de sofrimento, basta nascer pra começar a morrer e perder. Já dizia o samba: tristeza não tem fim, felicidade sim. Quando conseguimos assimilar isso, estamos muito mais aptos a apreciar a vida e os amores como eles são, sem manuais de autoajuda debaixo do braço, sem se comprar ao cara da tevê. Os momentos de alegria são como pedras raras, como o dinheiro. Tudo que há demais perde o valor. Nossa sociedade prega que se sente triste tem menor valor que o próximo, quando o sofrimento gera autoconhecimento e maturidade. Mas não adianta, eles ficam surdos e vidrados em comerciais de margarina. A vida só pode ser doce como ela é. Simplesmente porque ela é. Tudo que deveria ser é amargo e não cheira bem. Meus filmes favoritos são os que não têm final feliz. E eu me sinto bem com isso tudo.

Quando não dá certo, qual tua dica - além de escrever pra esquecer?

Eu lembro aquela estrofe cantada pelo Raul Seixas: "Como as pedras imóveis na praia / Eu fico ao seu lado sem saber / Dos amores que a vida me trouxe / E eu não pude viver". Vá embora, reinvente-se, viva o luto e aguarde as quinhentas mil coisas que estão por vir e você não pode prever. Mas também é difícil saber quando já não deu certo. Costumo medir pelo tempo. Não se sinta miserável e infeliz num relacionamento por mais de dois ou três meses. E esse negócio de marcar hora revitalizar o astral na cama é bobagem. Atenção casais que esperam bater 22 horas pra transar: vocês estão errados. O sexo não é tudo numa relação, mas é com certeza o termômetro de tudo. Tem que rolar com qualidade, intimidade e espontaneidade. Se não, já foi. Ninguém pode existir nem viver alguns de seus desejos. Mas é só o que eu penso.

Trechos do livro:

Eu não abro mão

Abro mão do velho sonho de viajar de mochila pelo litoral brasileiro. Descarto aquela pós-graduação na Alemanha, de trabalhar catorze horas por dia. Eu abro mão de férias no inverno, show do Oasis em Manchester, largar portfólio em São Paulo, da tranqüilidade de morar em Gramado ou de um carro só pra mim. Da paz que tua presença me traz eu não abro mão.

Como terminar um namoro da forma certa

Eu e a Ana fizemos um pacto, como todo par recém apaixonado. Nos amaremos para sempre? Não, eu não era um príncipe, nem ela cinderela. Fizemos um trato de virarmos as costas assim que o prazer de estarmos juntos escapasse os dedos. Rápido, indolor e sem dramas.


Por que tu não tem namorado

Poxa, como batata frita, torta de limão, churrasco e trufa de leite condensado. Ok, a alcunha de magricela, cabo de vassoura ou Olivia Palito nunca lhe serviram, talvez. Urros sobre sua suposta suculência não tem advindo de prédios em construção, quiçá. Quem sabe não fica bem de "tomara-que-caia", tropica no salto agulha, não combina numa minissaia. Mas desbanca a Miss Venezuela num vestido primaveril, pisando numa rasteirinha prateada, com o cabelo preso naquele lápis cor-de-rosa, soprando a franja pra cima no calor. Não vai me acreditar, mas tu é bonita.

Por Sabrina Passos (MBPress)

Comente