O que fazer para se livrar da síndrome do casal perfeito?

Não é uma tarefa fácil, pois ainda vivemos numa cultura na qual se valoriza, "Casaram-se e viveram felizes para sempre." Nesta filosofia, os conflitos são vistos como ameaçadores à relação, há medo de separação. Os parceiros vivem seguindo um molde esperado pela sociedade, no qual as discussões não são bem vindas, não são vistas como enriquecedoras e experiências de vida, e que podem contribuir renovando a vida do casal.

Os conflitos são parte essencial da vida de um casal. As diferenças entre marido e mulher existem e são importantes de serem reconhecidas e respeitadas. As necessidades, os ritmos do corpo, os desejos, de um homem são freqüentemente diferentes daqueles de uma mulher. Pontos de vista diferentes sobre um mesmo assunto não significam a impossibilidade de convívio, Pelo contrário, se podemos escutar o outro, compreender o que ele sente e não desqualificá-lo, mas incluí-lo sem exigir dele que seja do jeito que gostaríamos que ele fosse.

Precisamos abdicar de esperar que o outro preencha todos nossos vazios. Angústia, vazio, fazem parte da existência e não dizem respeito necessariamente ao parceiro. Podem estar ligados, a outros aspectos da vida, como trabalho, maternidade, envelhecimento, etc.

O sonho de "viveram felizes para sempre" implica em pensar que não haverá transformação, que as pessoas não mudam com o tempo.

Crescemos perseguidos por clichês do que é ser uma boa esposa, uma boa mãe, uma boa mulher, um bom marido, etc. Estes adultos, ainda não amadureceram e imaginam que desta forma estão satisfazendo os pais, e serão mais amados por isto.

Os casais adotam a atitude avestruz por achar que devem seguir um padrão de relação perfeita. Faço de conta para o outro e para mim que está tudo bem, que nunca há crise. Coloca-se a sujeira debaixo do tapete. Mas as angústias crescem, e muitas vezes o que observa-se e que para manter uma relação "perfeita" , cada parceiro escolhe válvulas de escape desta angústia e exigência. Válvulas como, consumir excessivamente roupa, álcool ou drogas. Ou, ter um filho atrás do outro, para se esquecer dos conflitos da relação. Ter um amante, que possa nos dar o prazer que não achamos na relação.

Estas pessoas sofrem, pois não conseguem crescer e aceitar as dificuldades da vida. São eternos dependentes do parceiro e também despóticos, porque exigem que o outro se torne, provedor dos seus desejos. O homem espera que sua mulher nunca envelheça, esteja sempre bonita para que os outros o achem bem sucedido no casamento.

Não há uma receita para manter a relação sadia. A escuta e o cuidado com o outro é fundamental. Tornar-se cada vez mais consciente dos seus desejos e expectativas do outro é importante. Admitir que o outro é um ser diferente, com uma história única, singular, nem melhor, nem pior que a nossa é importante. Tentar compreender os motivos inconscientes que existem por trás dos atos pode nos ampliar a forma de ver e sentir a vida.

Trazer os desconfortos e falar deles, sem esperar que o outro vá resolvê-los, mas sabendo que o mero ato de conversar e expressar os sentimentos pode encaminhar algumas questões.


A terapia de casal ou individual dos parceiros é muito benéfica, pois compreendemos melhor nossos conflitos, expectativas inconscientes e como foram construídas na nossa infância.

Maria Cristina Capobianco é psicóloga e autora do livro "O corpo em off" (Ed. Liberdade).

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