O fim do amor romântico?

O fim do amor romântico

Foto: Flávio Gikovate por Eduardo Knapp

“Uma História de amor... com final feliz” é o livro do psiquiatra Flávio Gikovate. O especialista de 65 anos decreta em sua obra a morte do amor romântico e acredita que os relacionamentos atuais não duram por serem formados por “um egoísta” e “um generoso”, onde um exige de mais e o outro sempre cede.

O psiquiatra ainda desfaz um mito da sociedade: o ficar sozinho. Contrariando a opinião de muitas pessoas, Gikovate declara que ficar sozinho não é ruim. “A solidão é boa, ficar sozinho não é vergonhoso. Ao contrário, dá dignidade à pessoa. As boas relações afetivas são parecidas com o ficar sozinho, ninguém exige nada de ninguém e ambos crescem”, diz.

Em entrevista ao Vila Mulher, o psiquiatra explica a idéia do livro e acalma os românticos de plantão. Para ele, ainda existem casais que podem ser felizes, apesar de muitas relações atuais serem de “má qualidade”.

Por que você acredita que a vida de solteiro é melhor para a felicidade da pessoa do que a vida de casado?

Não é isso que eu defendo. O que eu acredito é que aprender a viver sozinho é um bom estágio para dar início a uma relação madura, mas não é pré-condição para lidar com a sensação de desamparo. Uma sensação que nos acompanha desde o nascimento. Nesse sentido, discordo de quem considera ruim o individualismo. O individualismo não é egoísmo. O egoísta gosta de turma, porque é aí que encontra um generoso para abusar. O generoso também não é individualista porque tem a necessidade de dar. Sendo assim, o individualismo resolve o dilema entre o egoísmo e a generosidade. A pessoa se entende como uma unidade e não como uma metade. Caso se sinta desamparada, resolve isso por si mesma e não por meio do outro. Isso não significa não me relacionar, mas o outro deve ser escolhido de outra forma.

Como estão os relacionamentos hoje em dia? As pessoas passam mais tempo solteiras ou casadas? Por quê?

A maioria dos relacionamentos de hoje é de má qualidade. Por quê? Porque os casamentos acontecem entre opostos. Geralmente, une um generoso e um egoísta. Essa união é um dos maiores erros que cometemos. A sociedade criou o individualismo - digo “a sociedade” porque somos nós, em última instância, que mudamos o mundo - para acabar com a dualidade egoísmo-generosidade. Esse novo contexto vai formar o “justo”. Ele troca, não dá com o intuito de dominar, nem recebe de uma forma parasítica. A maturidade emocional é uma conquista, você aprende a dar na mesma medida em que recebe. E isso incluiu trabalhar a individualidade e entender que o amor romântico tradicional não tem chances de dar certo, porque é incompatível com o desejo crescente do individualismo. Como os casamentos de boa qualidade são minoria, certamente as pessoas estão passando mais tempo solteiras. A solidão é boa, ficar sozinho não é vergonhoso. Pelo contrário, dá dignidade à pessoa. As boas relações afetivas são parecidas com o ficar sozinho, ninguém exige nada de ninguém e ambos crescem.

Ainda há uma busca pela "alma gêmea"? Isso vai mudar?

Muitas vezes, pensamos que o outro é nossa alma gêmea e, na verdade, o que fizemos foi inventá-lo ao nosso gosto. Por isso, diminuem as chances de dar certo. Mas o sonho de fusão, de união de duas metades, continua presente no imaginário das pessoas. Duas coisas, contudo, têm modificado esse ideal: a independência da mulher, desequilibrando a idéia de fusão com uma liderança masculina, e o avanço tecnológico, que criou condições extraordinárias para o entretenimento individual. Hoje, há uma briga muito mais ostensiva entre amor e individualidade. Se eu tiver de escolher, opto pela individualidade. Meu livro tem dois finais: um é ficar sozinho, outro bem-acompanhado. Ambos representam a vitória da individualidade. Posso jogar tênis sozinho ou em dupla. O que não posso é jogar com um parceiro desleal, ciumento e que queira mandar em mim. Isso não é ser egoísta. O egoísmo se caracteriza pela intolerância à frustração. O independente resolve agüentar suas dores. Além disso, hoje o mundo é mais favorável a pessoas sozinhas.

Existem casais que encontram a felicidade no casamento? Como isso é possível?

Existem, mas é um número muito pequeno. Há sutilezas que são deixadas para trás e, em algum momento, um dos dois resolve cobrar. Por isso, o ideal é buscar um parceiro com quem tenhamos afinidade de caráter e também de estilo de vida, de projetos e gostos para o lazer. O cotidiano afetivo é mais do que tudo constituído de atividades lúdicas, que têm de ser do agrado de ambos. Caso contrário, viveremos em eternas concessões. O amor do futuro é aquele que chamo de mais amor. É a aproximação de duas pessoas inteiras e não de duas metades. Essa é o melhor passo para aprimorar uma relação.

Fonte - MBPress

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