O dia em que ele pediu a separação

Eu estava na grande varanda da fazenda congelando. Fui ao nosso quarto buscar alguma coisa e sondei com o rabo de olho a figura na sala. Cuecão de cetim, notebook na barriga (que estava enorme – 9 meses e dura, parecendo uma grande melancia escura). Estava lendo os e-mails na frente da TV com cara de ontem... sabe aquela cara de quem não sabe o que está se passando? Então...

Resolvi que estava na hora de dar um basta naquela situação. Passados quatro dias que eu encontrara a mensagem da vagabunda no celular dele já era hora de resolver aquilo. Eu nunca conseguia ficar brigada com ninguém. Ficar indignada dá muito trabalho. Tem que manter uma postura séria, as respostas devem ser monossilábicas quando são dadas, acho que a regra é mesmo manter silêncio se o agressor lhe dirigir a palavra e essas prerrogativas não combinam com meu jeito de ser. Quem está ofendida não pode ser feliz, não pode contar piada e nem soltar gargalhada. O ofendido não pode correr na chuva, não pode pular na piscina com a roupa de griffe que usa pela primeira vez, não dá para o ofendido jogar a sandália de salto para o cachorro ir buscar. Eu já estava cheia daquilo.

Sentei-me no sofá certa de que tudo aquilo teria uma explicação, ele pediria desculpas (afinal nossa vida era tão tranqüila, tão gostosa) e tudo se resolveria. Eu esqueceria que a vadia destruidora de lares o chamara de nenen e a paz voltaria a reinar no meu castelo. Assim, tudo simples, rápido, direto. Eu até achava que eu era o sonho de muito marmanjo... ora.. qual homem não sonharia em ter uma bela mulher, inteligente, leitora voraz, entendida de política, filosofia, jardinagem, bordados e culinária? Essa mulher (eu) ainda gostava de sexo como ninguém, era carinhosa, não pegava no pé, deixava o marido livre quando quisesse e não ficava vigiando e-mail, celular (pegar a tal msg foi um acidente mesmo. A energia da fazenda acabou e no escuro a única coisa que se via era a luz do celular que ligou e apitou com o recebimento de nova msg. Eu o peguei para clarear o ambiente e eis que nomes carinhosos rapidamente me chamaram a atenção para a tela do equipamento).

Pois bem, me sentindo a rainha da cocada preta, disse a ele que precisávamos conversar sobre os últimos dias (evitei falar que precisávamos conversar sobre a sua safadeza, sua cara de pau, sua falta de respeito) e resolver aquele incômodo. Sem tirar a atenção do notebook, o cafajeste moreno me perguntou o que eu queria fazer. Respondi que eu não tinha que fazer nada, era ele quem me devia desculpas. Era ele quem estava fazendo coisas erradas.

Acho que classificar o recebimento de uma msg amorosa como “coisas erradas” era uma premissa da madame aqui por que ele não parecia achar nada disso.

Depois de alguns por que isso, por que aquilo ele abaixou a tela e se ajeitou na beira do sofá. Expressão séria, jeito de vítima ofendida e tragicamente atacado pela maldade da bruxa que finalmente o encurralara ele disse que queria a separação. Diante da minha expressão de espanto e incredulidade ele deixou vir a tona o seu escondido porém certeiro dom da oratória. Disse que não estava feliz, não estava realizado, não gostava do meu jeito, não gostava do jeito que eu falava e que eu não me importava com ele. Disse que já havíamos tentado e vez ou outra a coisa piorava de novo. Da última vez que nos separamos, não deveríamos ter voltado – ele disse.

Esqueci na hora da vagabunda e me senti encurralada. – Mas nos damos tão bem, estamos vivendo um momento de tanta paz e realização de nossos sonhos meu anjo. Eu estou me sentindo tão feliz e achei que você também estava.

Ele abaixou os olhos e deu uma risadinha besta. – Pois é.. você acha né? Eu não estou feliz não...

Lembrei-me dos últimos meses de agarramento sem finalização na cama e arrematei: - tá... que a gente não tem transado muito ou quase nada, mas é você que não quer.

E o safado: Pois é... tem isso também.

E nossa casa, nosso quarto com banheira, nosso jardim de inverno? Sonhamos com isso desde que começamos a namorar e agora conseguimos. (Tínhamos passado nossa cama para o grande quarto no dia do fatídico drama).

Então... temos muitas coisas. Dá prá gente repartir e cada um viver bem. Na verdade quem se importa com coisas materiais é você. Eu não me importo com isso, você sabe.

Eu estava com vontade de vomitar mas segurei as pontas. – Ora, deixe de ser hipócrita! Então, eu posso ficar com tudo e a gente se separa? Por que é que você fica xingando a mulher do Edevaldo (era um cliente gente boa que a mulher tinha botado chifre e ficado com tudo) se você não liga para bens materiais?

Ele calou o bocão. Ficou mudo. Pressenti então que ele queria sim, separar sim e levar sim um montão de nossos bens. Eu sabia como funcionava, separávamos os que estavam nos nossos nomes, algumas besteiras que era claramente reconhecido por todos e estava no nome de terceiros e o resto... pimba! Eu ia dançar seriamente.

Mas apesar do risco de recomeçar após os 40, havia o medo da solidão. Os filhos trabalhavam com ele, estavam sempre por perto dele. As nossas noites eram sempre uma festa. Não importava se era terça feira ou sábado, sempre tínhamos alegria, luzes, músicas e sorrisos. – Como ele poderia pensar em ter aquelas noites sem a minha presença? E se eu ficasse com a fazenda que idealizamos cada pedaço, como ele poderia pensar em viver sem aquele lugar? Sem nossos cachorros, nossos gatos?

Pensar que ele queria inaugurar a piscina com o espelho dágua, a sauna, a hidromassagem sem me ter por perto doía tanto que meu peito parecia que ia explodir.

Cabisbaixa enquanto tentava teimosamente arrancar um pedaço da unha do pé (a vontade era de arrancar um dedo para desviar a dor que incomodava, a falta de ar que me engasgava na hora de falar:

- Eu não estou preparada. Eu estava me sentindo tão bem. E eu deixei as oportunidades do emprego para me dedicar a nós, aos meninos. Eu nunca havia me sentido tão segura...

Ele nem aí.

- Tem certeza que é isso que você quer? – Não, não tenho certeza. Não sei o que eu quero.

- Você está gostando dessa moça (rapariga, safada, sem vergonha), meu anjo? - Não, não estou gostando. Se estivesse não estaria mais aqui. Já teria me separado.

Finalmente desabei. - Não vamos nos separar meu anjo, vamos tentar novamente.- Então ta. Vamos continuar como estamos. Vamos tentar de novo.

Assim, sem gritos, sem emoção, sem pedido de desculpas, sem abraços no final. Saí para o quarto e ainda fiquei com pena do fdp. Ele queria tanto nosso quarto, empreendera tanto dinheiro para colocar as pedras que eu pedira, as tintas, os materiais e agora estava lá na sala fria. Busquei-o pela mão e o cobri na cama.

Nessa noite eu fiquei fitando sua imagem que refletia no vidro do jardim, escutando seu ronco que normalmente era irritante. E não acreditava. Meu Deus... eu estava tão confiante no nosso relacionamento, tão segura da nossa cumplicidade.

E como por Deus, ele conseguia dormir depois daquele tumulto? Lembrei-me então que ele sabia que era amado e isso trazia conforto. Enquanto eu nadava na lama da dúvida, ele tinha um mar de certezas. Enquanto eu me afogava na crise dos 40 ele alimentava o lobo que uivava nos seus 45. Enquanto eu morria de dor, ele dormia na paz.

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