O amor como droga...

O amor como droga

O amor pode se transformar em doença. O fatalismo da frase pode parecer bobagem para você que vive uma relação saudável. Mas para muita gente, o sentimento bom vira fonte de sofrimento, prejudica a auto-estima e pode levar do céu ao inferno rapidinho. Isso acontece quando o amor vira co-dependência.

Quem vive dessa maneira não encontra segurança e proteção - a não ser ao lado do amado -, vê a relação se transformar em problema e o companheirismo e a intimidade desaparecerem. Aí, a imaturidade emocional dá as caras e o amor ganha status de droga. Pesada.

"Tudo aquilo que proporciona sensação de bem-estar e prazer pode viciar. Assim acontece com a droga. E pode acontecer com o amor, principalmente quando este se apresenta em excesso. A base da co-dependência é o apego, popularmente conhecido como amor excessivo", explica o terapeuta de casais e famílias Paulo G. P. Tessarioli.

Segundo ele, uma das formas mais simples de identificar esse sentimento doente é perceber o que ele proporciona. Se perguntar, por exemplo, se existe confusão, sofrimento ou medo pode ajudar. "As características básicas da dependência afetiva são imaturidade emocional, baixa tolerância ao sofrimento, à frustração e a ilusão de permanência", relata. Esses dependentes manipulam, controlam, se vitimizam, chantageiam, são prestativos e depois cobram caro por isto. "Sufocam e limitam o raio social do parceiro, vivem a vida do outro".

Paulo explica que o efeito mais nocivo dessa co-dependência é a ‘despessoalização’, ou seja, a perda da própria identidade. "Outros efeitos são de ordem emocional e perturbam o funcionamento do corpo, por exemplo, com crises de ansiedade (síndrome do pânico), altos e baixos do humor (depressão e euforia), e auto-estima prejudicada".

A mulher é considerada mais sensível à co-dependência do que o homem, mas a razão é cultural e histórica. "A ideologia do amor romântico as sensibilizou de uma forma muito mais intensa. Embora existam homens co-dependentes, boa parte das mulheres ainda vive como coadjuvantes de seus companheiros", afirma.

A dependência afetiva, assim como a química, não tem cura. Mas o tratamento é sempre bem vindo e consiste em desenvolver o amor próprio, o autocontrole e a abstinência de relacionamentos doentios. Mas diferentemente da dependência química, em que é óbvia a orientação de parar e se afastar da droga, na dependência de afeto não dá para deixar de se relacionar com pessoas e se afastar delas. "Por esta razão, a base do tratamento consiste em psicoterapia, biblioterapia e grupo de auto-ajuda. Nos casos mais difíceis, em que há co-morbidades [dependência afetiva associada à química ou a comportamentos compulsivos] é recomendado o acompanhamento psiquiátrico", sugere Paulo.


Por Sabrina Passos (MBPress)

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