Nós no relacionamento

Nó no relacionamento

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Quando duas pessoas se unem num relacionamento amoroso, iniciam um laço de bons sentimentos. As crises e dificuldades naturais das uniões, porém, transformam o laço em um verdadeiro nó, aparentemente indissolúvel.

Autor do livro "O nó e o laço - Desafios de um relacionamento amoroso", o psiquiatra e psicólogo Alfredo Simonetti, diz que a conversa amorosa é o que há de mais preciso para reconstruir o laço. Confira a seguir.

O que, dentro de uma união amorosa, podemos chamar de "nó"? E mais: como e por que surgem os nós?

Nó é o nome que damos para as crises e as dificuldades naturais de um relacionamento amoroso tais como desencontros, brigas, sentimento de não ser amado, ciúmes, tédio, falta de liberdade, problemas sexuais, financeiros, desacordo sobre trabalhos domésticos, criação de filhos, etc...

Em que momento da união começam a surgir os nós?

O primeiro nó é a passagem da paixão para o amor. A paixão é um tempo de muita sintonia, mas chega uma hora, cedo ou tarde, que as coisas esfriam um pouco e aí os amantes se surpreendem. Hum? Como assim? O que aconteceu com a gente? Este é um momento de decisão, tanto pode ser um ponto final na relação como um novo começo. As coisas podem não ser mais como antes, mas cada instante tem seus encantos e cabe aos amantes irem além dos desencantos do fim da paixão e descobrir as trilhas do novo amor.

É possível evitar a formação do nó diante do relacionamento amoroso?

Sim. É claro que existem casamentos sem nós, mas eles são tão raros que não servem de exemplo. A maioria dos casamentos apresenta momentos de nós, de forma que um casamento feliz não é um casamento sem nós, mas sim um casamento no qual as pessoas aprenderam a afrouxar os nós, a transformar os nós em novos laços.

A formação dos nós tem algum culpado no relacionamento? Podemos culpar, por exemplo, as diferenças naturais entre homens e mulheres?

Todo casamento amoroso tem uma tendência natural a transformar o lindo laço inicial de amor e desejo em um nó de problemas e dificuldades. Não é culpa de um ou de outro, é uma característica dos relacionamentos humanos. As diferenças entre homens e mulheres podem parecer a explicação para as dificuldades no relacionamento, mas isto é apenas aparência. Porque, se fosse assim, os casamentos homossexuais seriam sempre harmoniosos, e não é o que acontece. O casamento entre dois homens ou entre duas mulheres tem os mesmos nós de um casamento heterossexual, os mesmos ciúmes, os mesmos desencontros.

O que acontece psicologicamente com os casais apaixonados diante dos nós? O amor acaba?

A primeira reação diante dos nós é a frustração e as pessoas pensam que isto acontece porque o amor acabou. Não é assim. Mesmo com amor, o nó acontece. O amor coloca o time em campo, mas o casamento é um jogo sexual, jogo financeiro, jogo familiar, entre outros muitos jogos.

É possível simplesmente se acomodar e conviver com os nós no relacionamento? Quais as consequências?

Se o casal simplesmente se acomodar e conviver com os nós, se não busca afrouxá-los e transformá-los em um novo laço, a consequência é o distanciamento, a desilusão, a frieza sexual e afetiva. Ou então o contrário, o casamento vira um "nó cego", uma relação negativa e tóxica.

Existe receita para desatar o nó?

Não. Trabalho com pessoas, como psiquiatra e psicanalista, há 25 anos e uma coisa que descobri é que cada um tem que encontrar sua própria saída. Nunca encontrei uma grande verdade que servisse para todos indistintamente. Nenhuma mesmo. Um casamento para cada casal, poderíamos dizer como receita. Ou seja, cada casal precisa descobrir - geralmente conversando - a sua maneira de desatar os nós.

O livro cita a conversa como o grande desatador de nós. Muitos casais têm como prioridade a conversa e não conseguem desatar seus nós? Qual o segredo da conversa capaz de estabelecer um novo laço no relacionamento?

Não é toda conversa que serve para desatar os nós. Tem conversa que vira bate boca, sermão, aula, monólogo, etc. Para ser uma boa desatadora de nós, a conversa precisa ser cuidadosa. Por exemplo: tem que ter hora e lugar certo. Conversar sobre um assunto importante quando se está cansado ou irritado é uma sabotagem. Conversar na presença de outras pessoas pode virar um jogo de "tribunal" e só complica a situação. O livro trata exatamente de algumas idéias para orientar este tipo de conversa. Não é uma receita, mas idéias úteis para a conversa amorosa. E não tem muito jeito, ou o casal discute um pouquinho a relação ou vai discutir um montão "na" relação.


Conversar significa acabar com os nós para sempre? Ou eles ainda podem voltar a acontecer na união?

Não. Os nós nunca acabam. O casamento é uma alternância de nós e laços. A conversa não é vacina e, muitas vezes, ela nem resolve os problemas. O que acontece é que a conversa amorosa não tem por função resolver problemas. Conversamos muito mais para nos sentirmos amados, ligados, do que para efetivamente resolver problemas.

Por Adriana Cocco

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