“Não conseguia me separar”

“Não conseguia me separar”

Quando conheceu o ex-marido, Silvia tinha apenas 13 anos. Filha de pais separados e caçula de quatro irmãos homens, engravidou do primeiro namorado aos 17 e se casou. Antes dos 23 já estava separada legalmente - primeiro sinal de que a história dela e de Roberto estava fadada ao fracasso.

Submissa, desempregada, desamparada e com medo, ela voltou para casa em todas as oito tentativas de separação. Tinha dois filhos e a desculpa que dava aos amigos e familiares que não entendiam o vai-e-vem era que não tinha como sustentá-los sozinha - e jamais deixaria os dois com o pai.

Essa história durou 18 anos, até que ela finalmente resolveu sair de casa, com os dois filhos já crescidos. “Se eles não tivessem me colocado na parede e dito que também queriam sair daquela vida louca, talvez eu estivesse casada até hoje”, conta.

O psicólogo Sebastião Alves de Souza, de São Paulo, diz que realmente o fator financeiro e de estabilidade econômica acaba por ‘prender’ essas mulheres às relações. “Mas a co-dependência afetiva é a grande razão. A mulher vê esse marido como o salvador e tem medo de encarar a vida lá fora sozinha”, diz. Para ele, a razão para que muitas não consigam se livrar de relações doentes é a repetição do modelo (ou falta de modelo) que tiveram na infância ou na adolescência.

Ele lembra ainda que esse tipo de relação funciona por retroalimentação. “Enquanto o homem, normalmente um inseguro que precisa se assumir, age de maneira machista e autoritária, ela aceita a dependência. A relação normalmente não é racional ”.

Sebastião também é terapeuta de família e lembra que não importa a classe social - esse tipo de relacionamento nada saudável acontece em todas as esferas. “Tenho pacientes que são médicas, professoras, pessoas esclarecidas. Mas quando parte para o lado afetivo, são desestabilizadas e sofrem muito”.

A desculpa usada por Roberta para não se separar é repetida em muitas outras casas. São mulheres que não querem romper a família ou tirar os filhos de perto do pai. “Mas não há estudo algum que prove que viver num lar desestruturado é melhor do que viver com os pais separados”, alerta. Nos casos onde as famílias vivem num grau de tensão alto, a separação pode sim ser benéfica.

O problema na maioria dos casos, além daquele endeusamento da figura do marido, é a própria psique humana. “A mente sabota a gente. Esquecemos aquilo que é ruim e só enaltecemos o bom. Mas, no meio disso, famílias inteiras acabam vivendo de aparência”.


Uma sugestão de Sebastião para as mulheres que se enxergam nessa situação é procurar ajuda profissional ou grupos de apoio. “Este é um quadro muito difícil de resolver sozinha. O casamento em crise re-atualiza a situação de rejeição, evoca medos, reedita aquilo que já se viveu de maneira conturbada em casa, no passado. E esse choro antigo precisa de ajuda para se resolver”. Se você vê a história de Roberta refletindo no seu espelho, talvez o sentimento que precise semear agora seja um só: coragem. Livre da sombra do marido, ela encontrou uma saída para viver a própria história - sozinha.

Por Sabrina Passos (MBPress)

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